Complicações do preenchimento com ácido hialurônico

A maior parte das complicações descritas após o preenchimento com ácido hialurônico é passageira e localizada, como vermelhidão, inchaço e hematoma. Mais raras e mais sérias são a obstrução de um vaso e a perda de visão, relatadas sobretudo em séries de casos. Nenhum procedimento injetável elimina o risco, e as revisões médicas insistem em dois pontos: reconhecer o problema cedo e ter, por perto, quem saiba conduzi-lo.
Resposta rápida: as revisões separam as complicações em imediatas (vermelhidão, inchaço, hematoma), precoces (caroços e irregularidades, edema persistente, infecção) e tardias (edema e nódulos que surgem semanas a anos depois). As graves, de origem vascular, são raras e pedem atendimento imediato. A hialuronidase, enzima que degrada o ácido hialurônico, é descrita em várias situações, mas com evidência controlada limitada. Qualquer sinal fora do esperado deve ser comunicado logo ao médico que aplicou.
O procedimento em si tem página própria no site e foi explicado no artigo sobre o preenchimento com ácido hialurônico. Este texto reúne o que a literatura descreve quando algo não sai como o esperado.
Como a literatura organiza as complicações
Segundo revisão sistemática publicada em 2023 na Aesthetic Plastic Surgery, por Ioannis Kyriazidis e colegas, que analisou 48 estudos randomizados sobre preenchedores de ácido hialurônico na face, os eventos adversos se dividem em reações esperadas, eventos ligados ao produto ou à técnica e eventos graves. A maioria foi de reações no local da injeção, de curta duração, que cessaram sozinhas ou em poucas semanas. Os eventos graves foram raros, podiam durar meses e exigiam intervenção médica ativa.
Outra forma de organizar o tema é pelo tempo. A revisão sobre a região dos olhos, publicada em 2025 no Turk J Ophthalmol por Hilal Nalcı Baytaroğlu e Melek Banu Hoşal, usa reações imediatas, complicações precoces e complicações tardias.
Reações imediatas: vermelhidão, inchaço e hematoma
São as mais comuns. A revisão sobre a região dos olhos (pálpebras e entorno), cujos números valem para essa área, descreve a vermelhidão como em geral leve e transitória, com taxa máxima de 40% em um dos estudos. Para inchaço precoce e hematoma, as taxas variaram de 0% a 100% entre os estudos, faixa tão ampla que reflete diferenças entre métodos e estudos, e não um risco único.
Há uma exceção importante dentro desse grupo. Nas pálpebras, inchaço intenso e dos dois lados, que começa minutos a horas depois da injeção e pode vir com coceira ou urticária, pode indicar reação alérgica imediata. A revisão ressalta que sintomas que envolvem a respiração, o estômago ou a circulação exigem internação, e não observação em casa.
Complicações precoces: caroços, edema persistente e infecção
A revisão define como persistente o edema que começa em poucos dias e passa de 4 semanas apesar de cuidados conservadores, sem sinais de inflamação, com aspecto macio e pálido. As taxas relatadas ficaram entre 0% e 15%. Irregularidades de contorno precoces apareceram em até 33% dos pacientes em um dos estudos incluídos.
A infecção é descrita como rara na região dos olhos, com incidência de 0,04% a 0,7%, e se apresenta com inchaço persistente, vermelhidão, dor e, às vezes, caroços. Esses números valem para a pálpebra e não se transferem ao rosto inteiro.
Complicações tardias: edema e nódulos que aparecem depois
Algumas complicações surgem meses ou anos depois. A revisão de 2025 cita edema tardio em até 5% dos casos antes do fim de 12 meses de acompanhamento e diz que a prevalência exata é desconhecida. Para as irregularidades tardias, a revisão cita uma série com pelo menos 5 anos de seguimento em que a frequência foi de 30,5%, na maioria leves e sem necessidade de intervenção.
Os nódulos tardios são divididos em dois grupos. Os não inflamatórios aparecem como massas firmes, de limites nítidos, sem sinais de inflamação. Os inflamatórios vêm com vermelhidão, inchaço e sensibilidade ao toque. Segundo a revisão, a causa pode ser difícil de identificar apenas pelo exame clínico: entre as explicações descritas estão reação de corpo estranho (granuloma), biofilme bacteriano e infecção atípica. A revisão cita ainda a reação de hipersensibilidade tardia, estimada em 0,06% depois de aplicações de ácido hialurônico em qualquer parte do corpo.
Complicações vasculares e visuais: raras e graves
A injeção acidental do produto dentro de uma artéria, ou a compressão de um vaso, pode reduzir o fluxo de sangue e lesar a pele. Se o material avança por ramos ligados à artéria oftálmica, pode alcançar a retina e comprometer a visão. É o tipo de complicação mais raro e mais sério.
Não há número confiável de incidência, porque os dados vêm de casos publicados e não de um registro completo, e as porcentagens abaixo descrevem casos já relatados, não o risco de quem faz o procedimento. A revisão sistemática de Danny Soares e colegas (2022, Plastic and Reconstructive Surgery) reuniu 243 casos de isquemia da pele da face com fotografias na literatura. Segundo os autores, quando a pele da região da artéria oftálmica estava envolvida, houve perda de visão em 39% dos casos, contra 0,8% quando não estava, e AVC em 8% contra 0,8%.
Outra revisão sistemática, de Haodong Xiao e colegas (2022), analisou 144 casos de perda de visão ligada ao ácido hialurônico. Quase todos eram unilaterais, com início imediato dos sintomas, e o prognóstico foi descrito como muito ruim nos padrões mais comuns de obstrução. A revisão da região dos olhos acrescenta que a perda de visão pode vir com ou sem dor, em minutos a horas, junto de náusea, pálpebra caída ou lesão de pele.
O que a literatura diz sobre a hialuronidase
A hialuronidase é uma enzima que degrada o ácido hialurônico. Em revisão de 2024 publicada na JMIR Dermatol, George Kroumpouzos e Patrick Treacy afirmam que há dados controlados limitados, mas experiência clínica crescente, e que a enzima é descrita para a maioria das complicações, com perfil de segurança aceitável. Segundo os autores, as situações sem urgência, como caroços não inflamados, pedem condutas diferentes das emergências, como a obstrução vascular, em que o uso imediato é o descrito.
A evidência tem limites claros. Uma revisão de escopo de 2022, de Ali Borzabadi-Farahani e colegas, encontrou só cinco ensaios randomizados, com 53 participantes, todos feitos nos Estados Unidos e em áreas como antebraço e costas, com nódulos sem complicação. Não havia ensaio sobre a pele do rosto, sobre nódulos inflamatórios nem sobre isquemia dos tecidos.
Para a visão, a discussão é mais delicada. Revisão sistemática de 2025, de Abdullah Alhusain e colegas, reuniu 21 estudos com 231 pacientes e relatou, segundo o resumo, resolução em 78,4% dos casos de necrose da pele e em 45,2% dos de comprometimento visual, com melhores resultados quando a intervenção ocorreu em até 6 horas. A revisão reuniu estudos de desenhos variados, e esses números não valem como promessa de desfecho. Já o consenso de especialistas publicado em 2021 no J Clin Aesthet Dermatol, assinado por membros fundadores de um grupo de estudo de complicações, diz que certos modos de aplicação da hialuronidase na região do olho têm eficácia não comprovada e podem trazer riscos adicionais sem treinamento oftalmológico. O texto recomenda agir rápido e encaminhar de imediato a um pronto-socorro ou a um serviço de oftalmologia.
Sinais que pedem contato imediato com o médico que aplicou
As fontes convergem em um ponto: o tempo conta. Com base nelas, estes sinais justificam contato imediato com o médico que fez o procedimento, ou ida a um pronto atendimento se ele não puder ser encontrado:
- alteração da visão, visão turva, escurecimento ou dor no olho, em qualquer momento depois da aplicação;
- dor intensa ou desproporcional, ou mudança de cor da pele (palidez, manchas arroxeadas ou acinzentadas) perto da região tratada;
- falta de ar, inchaço de lábios, língua ou pálpebras nos dois lados, ou coceira generalizada;
- vermelhidão, calor, dor e inchaço crescentes, ou secreção, nos dias ou semanas seguintes;
- caroços, endurecimento ou inchaço que surgem ou voltam semanas, meses ou anos depois.
Os três primeiros itens são tratados na literatura como emergência. Os demais merecem contato rápido, e a decisão sobre a conduta cabe ao médico, depois de examinar a pessoa.
Por que o profissional e o ambiente médico importam
Nenhuma das fontes citadas afirma que a escolha do profissional elimine o risco; elas tratam o preparo como parte da segurança. A revisão da região dos olhos afirma que o médico precisa conhecer bem a anatomia e estar equipado para intervir de imediato, se necessário. A de Kyriazidis aponta consentimento informado, orientação ao paciente e treinamento como pilares, e a revisão de 2026 sobre oclusão vascular, de Stephen Lowe, destaca o conhecimento do profissional e o reconhecimento precoce.
Dúvidas sobre o procedimento podem ser levadas à consulta médica com a Dra. Mirele Fadel. Quem compara opções encontra a diferença entre toxina botulínica e preenchimento em outro texto do blog.
Quando o preenchimento pode não ser indicado
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
Perguntas frequentes
Todo preenchimento com ácido hialurônico causa complicação?
Não. Segundo a revisão de 2023, a maioria dos eventos foi de reações locais de curta duração, e os eventos graves foram raros. Os estudos, porém, não permitem prever o que acontecerá com uma pessoa em particular.
Um caroço que aparece meses depois pode ter relação com o preenchimento?
Pode. As revisões descrevem nódulos tardios inflamatórios e não inflamatórios, com causas variadas. Como a origem é difícil de identificar sem exame, o caminho é procurar o médico que acompanha o caso.
A hialuronidase desfaz qualquer complicação?
Não há essa garantia. A enzima é descrita para várias situações, mas a evidência controlada é limitada, e na perda de visão a eficácia de alguns modos de aplicação não está comprovada. A conduta é definida pelo médico, caso a caso.
Inchaço nos primeiros dias é motivo de preocupação?
A literatura o descreve como reação frequente e passageira. Se for intenso, assimétrico ou vier com dor, vermelhidão crescente ou falta de ar, o médico que aplicou deve ser avisado.
Uma complicação pode surgir muito tempo depois?
Sim. As revisões descrevem edema e nódulos meses ou anos após a aplicação.
Referências
- Kyriazidis I, Spyropoulou GA, Zambacos G, et al. Adverse Events Associated with Hyaluronic Acid Filler Injection for Non-surgical Facial Aesthetics: A Systematic Review of High Level of Evidence Studies. Aesthetic Plast Surg, 2023;48(4):719-741. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37563436
- Nalcı Baytaroğlu H, Hoşal MB. Complications of Periorbital Cosmetic Hyaluronic Acid Filler Injections: A Major Review. Turk J Ophthalmol, 2025;55(5):276-286. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12559836
- Soares DJ, Bowhay A, Blevins LW, Patel SM, Zuliani GF. Patterns of Filler-Induced Facial Skin Ischemia: A Systematic Review of 243 Cases. Plast Reconstr Surg, 2022;151(4):592e-608e. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36477154
- Xiao H, Kou W, Yang Y, et al. Administration Method and Potential Efficacy of Hyaluronidase for Hyaluronic Acid Filler-Related Vision Loss: A Systematic Review. Aesthetic Plast Surg, 2022;48(4):709-718. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36574028
- Kroumpouzos G, Treacy P. Hyaluronidase for Dermal Filler Complications: Review of Applications and Dosage Recommendations. JMIR Dermatol, 2024;7:e50403. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10836581
- Borzabadi-Farahani A, Mosahebi A, Zargaran D. A Scoping Review of Hyaluronidase Use in Managing the Complications of Aesthetic Interventions. Aesthetic Plast Surg, 2022;48(6):1193-1209. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10999391
- Alhusain AM, Alsaif M, Alkhathami AM, et al. Hyaluronidase Protocol in Management of Hyaluronic Acid Filler-Related Vascular Complications: A Systematic Review and Meta-Analysis. Aesthetic Plast Surg, 2025;50(6):2300-2317. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41249530
- Walker L, Convery C, Davies E, Murray G, Croasdell B. Consensus Opinion for The Management of Soft Tissue Filler Induced Vision Loss. J Clin Aesthet Dermatol, 2021;14(12):E84-E94. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8794490
- Lowe S. Hyaluronic Acid Dermal Filler-Associated Vascular Occlusion: A Review of Prevention and Management Strategies. J Cosmet Dermatol, 2026;25(5):e70884. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13144706
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
Comentários
Leia também

Toxina e preenchimento: o que cada um é e como se diferenciam
Toxina botulínica tipo A e ácido hialurônico são as duas substâncias injetáveis mais citadas quando se fala de procedimentos estéticos no rosto,…

Tenha um dia iluminado.
Que nossa coragem seja maior que os nossos medos e que a nossa força seja tão grande quando a nossa fé. Tenha…

Toxina botulínica tipo A: o que é, como age e usos descritos
A toxina botulínica tipo A é uma proteína produzida pela bactéria Clostridium botulinum que bloqueia, de forma temporária, a liberação de acetilcolina,…

Bunny lines: por que surgem as rugas laterais do nariz
Bunny lines, ou linhas de coelho, são as rugas finas, diagonais ou verticais, que surgem nas laterais do nariz quando a pessoa…