Bioestimuladores de colágeno nos glúteos: o que dizem os estudos

Bioestimuladores de colágeno aplicados na região glútea aparecem na literatura médica, até aqui, sobretudo em séries de casos, estudos pequenos de um único centro e consensos de especialistas. Os trabalhos descrevem o uso para a qualidade da pele, a flacidez e as depressões da celulite, e todos apontam limites: poucos participantes, ausência de grupo de comparação e, em vários casos, autores com vínculo com a indústria. Em glúteos, a literatura descreve o uso como fora da bula, e a decisão de fazer ou não cabe ao médico, depois de uma consulta individual.
Resposta rápida: bioestimuladores de colágeno são substâncias injetáveis descritas como estímulo à produção do próprio colágeno da pele. Nos glúteos, as publicações medem textura da pele, depressões de celulite e volume, quase sempre de forma subjetiva e sem grupo de comparação, com evidência de nível baixo e uso off-label, isto é, fora da bula. Riscos descritos incluem hematoma, dor, inchaço, nódulos e, em relatos isolados, complicações graves. Na consulta médica, a Dra. Mirele Fadel analisa cada caso em detalhe.
A página sobre bioestimulador de colágeno reúne o que se sabe do procedimento de forma geral. O artigo sobre bioestimuladores de colágeno traz a visão geral; este texto se limita à região glútea.
O que são bioestimuladores e como chegaram aos glúteos
Segundo revisão de 2022 publicada na Clin Cosmet Investig Dermatol (Marie-Odile Christen), os estimuladores de colágeno foram criados para repor volume no rosto. Com o tempo, passaram a ser aplicados em outras partes do corpo, como pescoço, colo, abdome, braços, coxas, joelhos, mãos e glúteos. A autora cita perda de volume, flacidez, celulite, estrias e rugas entre as queixas, e afirma que os dados publicados ainda são limitados.
As substâncias mais citadas nesse contexto são o ácido poli-L-láctico e a hidroxiapatita de cálcio. A ideia descrita pelos autores é que o material provoca uma resposta do tecido, com formação de colágeno novo ao longo do tempo. Por isso o efeito, quando relatado, é gradual e varia de pessoa para pessoa.
Na região glútea, o uso é fora da bula
Um consenso global sobre hidroxiapatita de cálcio diluída, publicado em 2018 na Dermatol Surg (Kate Goldie e colegas), descreve a aplicação na pele de várias regiões, incluindo os glúteos, e a chama de uso off-label, ou seja, fora das indicações aprovadas. A bula de cada produto registrado no Brasil é que define as indicações. Os autores falam em diretrizes preliminares.
O mesmo vale para o ácido poli-L-láctico. Em 2023, no J Clin Aesthet Dermatol, Juliana Sarubi e colegas descrevem a injeção nos glúteos como um uso off-label de uma substância aprovada para o rosto. Os resultados que apresentam são observações clínicas subjetivas, sem dados quantitativos. Parte dos autores tem vínculo com uma fabricante.
Uma revisão de 2026 sobre os achados de ressonância magnética após cirurgias e procedimentos estéticos dos glúteos, publicada na Skeletal Radiology (Marcelo Maruichi e colegas), registra que os preenchedores injetáveis não são recomendados pela FDA, órgão regulador dos Estados Unidos, para uso nos glúteos. Segundo os autores, o uso cresce mesmo assim, em parte nas mãos de profissionais sem qualificação.
O que os estudos relatam sobre pele, flacidez e celulite
Os dados a seguir vêm de pesquisas e não valem como promessa de resultado. A resposta varia de pessoa para pessoa.
O consenso internacional de 2025 sobre ácido poli-L-láctico no corpo, publicado na Aesthetic Plastic Surgery (Alessandra Haddad e colegas), descreve a base de evidência como formada em grande parte por estudos observacionais e séries de casos e recebe nível de evidência IV. O resumo aponta potencial benefício no pescoço, os joelhos, o abdome, nas mãos e na parte superior dos braços, e menciona a celulite de glúteos e coxas como área estudada mais recentemente. Quatro dos autores trabalham para uma fabricante.
Em revisão retrospectiva de 60 pacientes de 23 a 54 anos, acompanhadas por dois anos, publicada em 2020 na Dermatol Surg (Kalpna Durairaj e colegas), dois investigadores analisaram fotografias antes e depois e pontuaram volume, textura da pele e depressões de celulite. Os investigadores descreveram aumento visível de volume, textura diferente e depressões mais suaves. É um estudo retrospectivo, sem grupo de comparação, em que a quantidade de produto variou conforme o orçamento da paciente, e não segundo um protocolo.
Série prospectiva de 20 pacientes, publicada em 2021 na J Cosmet Dermatol (Sachin Shridharani e colegas), reuniu várias regiões do corpo, sendo os glúteos 58% das sessões. Em 65% dos casos, a aplicação foi para corrigir deformidades depois de cirurgia. Segundo o resumo, 86% das sessões resultaram em melhora na análise do paciente e do médico. A amostra é pequena, a análise é subjetiva e uma autora trabalha para uma fabricante.
Para a celulite, estudo aberto de centro único publicado em 2024 na Aesthetic Plastic Surgery (Kay Durairaj e colegas) acompanhou 24 mulheres com hidroxiapatita de cálcio diluída nos glúteos. Na 14ª semana, os autores mediram redução média de 54% no número de depressões visíveis e de 50% na profundidade, e 91,6% das participantes classificaram a aparência da celulite como melhor. O estudo não teve grupo de comparação nem acompanhamento longo, e o resumo não informa se houve apoio de fabricante.
Bioestimulador e preenchimento volumétrico não são a mesma coisa
Os dois são injetados, mas a lógica descrita é diferente. Em artigo de 2022 na Aesthetic Surgery Journal (Z. Paul Lorenc e colegas), a hidroxiapatita de cálcio sem diluição é descrita como produto de volume. Em formulação hiperdiluída, espalhada por uma área maior, ela é descrita para estimular a formação de colágeno e elastina ao longo do tempo, com foco na qualidade e na flacidez da pele. A divisão não é rígida: estudos com ácido poli-L-láctico, citados acima, também relatam ganho de volume nos glúteos.
O preenchimento volumétrico dos glúteos, em geral com ácido hialurônico, busca outro objetivo: aumentar o volume e mudar o contorno. Revisão sistemática de 2023 na Aesthetic Plastic Surgery (Hatan Mortada e colegas) reuniu dez estudos, com 168 pacientes, e estimou a duração do efeito em cerca de 16 meses. Esses dados são de ácido hialurônico, não de bioestimuladores. Os autores descrevem a taxa de complicações como modesta, mas citam casos graves, incluindo hemorragia pulmonar e morte, e pedem ensaios randomizados.
Na consulta, a conversa parte da queixa: textura e flacidez, volume ou contorno. A página sobre preenchimento de glúteos descreve essa outra abordagem, e o artigo sobre preenchimento com ácido hialurônico explica a substância.
Eventos adversos descritos na literatura
O consenso de 2018 sobre hidroxiapatita de cálcio diluída cita como eventos relacionados à injeção hematoma, inchaço, dor leve e endurecimento. Os autores também afirmam que, em pele mais fina e mais escura, injeções muito superficiais de produto menos diluído podem causar mais eventos adversos.
Na série de 20 pacientes de 2021, os eventos foram hematoma, edema, dormência e dor ao toque, e um paciente (5%) teve formação de nódulo. No estudo de 24 mulheres sobre celulite, os autores não relataram complicações graves.
Também há riscos mais sérios descritos. A revisão de 2020 sobre ácido poli-L-láctico nos glúteos (Matthew Lin e colegas, Dermatol Surg) alerta para o risco de a injeção atingir vasos dos glúteos ou lesionar o nervo ciático, e classifica a evidência como de nível 4. Já a revisão de 2022 na Aesthetic Plastic Surgery (Bishara Atiyeh e colegas) encontrou apenas 12 relatos clínicos sobre preenchedores nos glúteos (ácido hialurônico, ácido poli-L-láctico, hidroxiapatita de cálcio e polimetilmetacrilato), a maioria com viés importante e evidência baixa, e conclui que o procedimento não é tão simples nem tão inofensivo quanto se anuncia. Segundo os autores, complicações graves ocorrem e se tornam inevitáveis quando a aplicação é feita de forma ilegal, por pessoas sem formação ou autorização. A revisão de 2026 na Skeletal Radiology, que trata dos procedimentos estéticos dos glúteos em geral, aponta a embolia pulmonar como a complicação mais temida, mais ligada à enxertia de gordura e às substâncias de preenchimento.
Os trabalhos citados não permitem uma taxa confiável de complicações para bioestimuladores nos glúteos, pelo tamanho e pelo desenho dos estudos.
Quando o bioestimulador pode não ser indicado
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
Como se trata de uso fora da bula, é razoável que a pessoa pergunte ao médico por que ele considera a abordagem adequada ao seu caso, qual produto será usado, o que os estudos dizem a respeito e quais riscos estão descritos.
O que a consulta médica analisa
Na consulta médica, a Dra. Mirele conversa sobre a queixa, a história de saúde, os procedimentos já feitos e as expectativas de cada pessoa. Também examina a pele da região e explica as alternativas.
Depois de qualquer procedimento injetável, dor intensa que aumenta, mudança de cor da pele, falta de ar ou dor no peito justificam atendimento médico de urgência.
Perguntas frequentes
Os estudos relatam ganho de volume com bioestimulador nos glúteos?
Alguns estudos relatam ganho de volume gradual, mas a evidência é de nível baixo. Preenchedores de volume têm outra lógica, e a escolha cabe ao médico.
O que os estudos dizem sobre bioestimulador e celulite?
Há estudos pequenos que descrevem menos depressões visíveis depois da aplicação, como o de 24 mulheres citado acima, sem grupo de comparação. Não há como prever o resultado individual.
O uso nos glúteos está na bula?
Segundo a literatura, não: a aplicação nos glúteos é descrita como off-label, ou seja, fora das indicações formais. As indicações de cada produto no Brasil constam na bula, e o médico deve esclarecê-las. Isso exige conversa clara sobre benefícios, riscos e incertezas.
Os efeitos duram quanto tempo?
Os estudos acompanharam as participantes por períodos diferentes, de algumas semanas a dois anos, e usam métodos de medição distintos. Não há prazo único, nem garantia individual.
Referências
- Christen MO. Collagen Stimulators in Body Applications: A Review Focused on Poly-L-Lactic Acid (PLLA). Clin Cosmet Investig Dermatol, 2022;15:997-1019. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9233565
- Haddad A, Avelar L, Fabi SG, et al. Injectable Poly-L-Lactic Acid for Body Aesthetic Treatments: An International Consensus on Evidence Assessment and Practical Recommendations. Aesthetic Plast Surg, 2025;49(5):1507-1517. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11965205
- Goldie K, Peeters W, Alghoul M, et al. Global Consensus Guidelines for the Injection of Diluted and Hyperdiluted Calcium Hydroxylapatite for Skin Tightening. Dermatol Surg, 2018;44 Suppl 1:S32-S41. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/30358631
- Sarubi J, Guarnieri C, Del Nero MP, et al. Gluteal poly-L-lactic acid injection: observational report. J Clin Aesthet Dermatol, 2023;16(6):30-36. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10286883
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- Lorenc ZP, Black JM, Cheung JS, et al. Skin Tightening With Hyperdilute CaHA: Dilution Practices and Practical Guidance for Clinical Practice. Aesthet Surg J, 2022;42(1):NP29-NP37. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8849118
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Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
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