Sorriso gengival: causas, análise e o que dizem os estudos

Sorriso gengival é o nome dado à exposição de gengiva acima do considerado habitual quando a pessoa sorri. A literatura costuma usar como referência uma faixa de 2 a 3 mm de gengiva visível no sorriso, e 3 mm aparece como o ponto em que a exposição passa a ser considerada estética. A causa pode estar no osso da face, nos dentes, na gengiva ou na musculatura do lábio, e muitas vezes é uma combinação. Por isso, antes de falar em qualquer procedimento, é preciso saber de onde vem a exposição.
Resposta rápida: o sorriso gengival tem causas esqueléticas, dentárias, gengivais e musculares. A toxina botulínica tipo A é descrita na literatura para os casos ligados à ação intensa dos músculos que elevam o lábio superior, com efeito temporário, que tende a diminuir entre 12 e 24 semanas. Para causas no osso ou nos dentes, outras áreas, como a odontologia e a cirurgia, costumam entrar. A decisão é individual e começa na consulta médica.
A toxina botulínica tipo A tem página própria no site, com informações sobre o procedimento e sobre como funciona o atendimento médico. Este artigo explica o que a literatura publicada descreve sobre o sorriso gengival e deixa claro o que ainda é incerto.
Quando a gengiva aparece demais ao sorrir deixa de ser só uma característica
Segundo revisão sistemática publicada em 2024 no Journal of Clinical Medicine, por Alessio Inchingolo e colegas, a exposição gengival excessiva é definida por mais de 2 a 3 mm de gengiva no sorriso, e a gravidade de um dos tipos de causa esquelética é graduada em leve (2 a 4 mm), moderada (4 a 8 mm) e grave (acima de 8 mm).
Esse número é só uma referência. A conversa na consulta médica começa pela queixa da pessoa, não apenas pela medida.
As causas descritas na literatura
A mesma revisão de 2024 separa as causas em três grupos. A causa esquelética é o excesso vertical da maxila, isto é, o crescimento do osso da face acima do esperado, que alonga o terço médio. A causa dentária é a erupção passiva alterada, quando a gengiva cobre mais do que deveria da coroa do dente. A causa muscular é a hiperatividade dos músculos que elevam o lábio superior, o chamado sorriso gengival dinâmico.
Na revisão narrativa publicada em 2023 na Cureus por Bader Fatani, a análise inclui ainda os componentes gengivais e classifica as causas em dentoalveolares, dentogengivais, musculares ou mistas. O mesmo autor cita medidas da gengiva, da coroa clínica e dos limites verticais do sorriso, além de exames de imagem do osso.
Outra variável é o próprio lábio. Os autores da revisão sistemática de 2023 sobre toxina botulínica, liderados por Rojo-Sanchis, recomendam diagnosticar fatores anatômicos, como o comprimento do lábio, antes de planejar qualquer abordagem com essa substância, justamente para evitar complicações depois.
Como a consulta médica distingue uma causa da outra
Na consulta médica, a Dra. Mirele Fadel analisa o rosto em repouso e em movimento. A revisão de 2024 descreve, para esse diagnóstico, a observação das proporções do terço inferior da face, a medida da coroa dos incisivos centrais, a checagem da posição da margem da gengiva em relação ao colo do dente e a análise da dinâmica do lábio por vídeo ou por análise digital do sorriso. Exames de imagem, como radiografias e tomografias, fazem parte da investigação quando há suspeita de causa no osso. A eletromiografia, segundo os mesmos autores, é usada em pesquisa, não na rotina.
Esse passo evita um erro comum: tratar como muscular uma exposição que vem do osso ou do dente. Os próprios autores da revisão de 2023 sobre toxina botulínica deixam isso explícito ao excluir de sua análise as pessoas cuja única causa era a erupção passiva alterada, o espessamento da gengiva ou a erupção excessiva dos incisivos superiores. Nesses casos, o músculo não é o problema.
O que se sabe sobre a toxina botulínica tipo A
Quando a causa é muscular, a literatura descreve a aplicação da toxina botulínica tipo A em músculos que elevam o lábio superior, como o levantador do lábio superior, o levantador do lábio superior e da asa do nariz e o zigomático menor. A ideia é reduzir a força com que esses músculos levantam o lábio. Os dados abaixo vêm de estudos e não valem como promessa de resultado para quem lê.
A revisão sistemática com metanálise de Rojo-Sanchis e colegas, publicada em 2023 no Journal of Clinical Medicine, incluiu 15 estudos na parte qualitativa e 11 na metanálise. Em adultos com mais de 2 mm de exposição, a redução média combinada foi de 3,22 mm em duas semanas (nove estudos, 213 pacientes) e de 2,70 mm em três meses (cinco estudos, 182 pacientes). Os próprios autores avisam que a heterogeneidade entre os estudos era altíssima, de mais de 95%, que os protocolos não eram padronizados e que a literatura é escassa e de qualidade científica baixa. Na análise de risco de viés, nenhum estudo foi classificado como de alto risco: 12 tiveram risco moderado e um, baixo. Eles declararam não ter conflitos de interesse nem financiamento externo.
A metanálise de Zengiski e colegas, publicada em 2022 na Clinical Oral Investigations, reuniu 17 artigos de 5.247 encontrados. A redução média em duas semanas foi de 3,42 mm, também com heterogeneidade elevada (97%). Segundo os autores, o efeito é descrito sobretudo para sorrisos gengivais de até 4 mm, e os valores voltaram perto do ponto de partida em 24 semanas. O resumo consultado não traz declaração de financiamento ou de conflito de interesse.
Os estudos relatam diminuição da exposição nas primeiras semanas, mais evidente em exposições menores, e a qualidade deles é limitada.
Quanto tempo o efeito descrito dura
Não existe um prazo único. Na revisão de Rojo-Sanchis, os resultados se mantiveram em três meses, e dois estudos com acompanhamento de 8 e 9 meses relataram valores semelhantes aos do início. Na revisão de Zengiski, a duração mínima foi de 12 semanas, com retorno próximo ao ponto de partida em 24. A revisão narrativa de Fatani cita de quatro a seis meses e registra que o efeito costuma aparecer entre uma e duas semanas após a aplicação.
A metanálise de 2024 de Maleki e colegas, publicada na Dentistry Journal, comparou tratamentos cirúrgicos e não cirúrgicos para a exposição gengival excessiva (26 estudos extraídos, 21 na metanálise, 633 pacientes). Nos tratamentos não cirúrgicos, que incluíram a toxina botulínica e a intrusão ortodôntica, a redução combinada foi de 3,43 mm em um mês e de 2,55 mm em três meses, caindo para 0,51 mm em seis meses e para 0,04 mm em um ano. Nas abordagens cirúrgicas, a redução continuou em cerca de 2,8 mm aos 12 meses. Os autores lembram que a maioria dos estudos não era randomizada e que a causa nem sempre foi identificada. A pesquisa recebeu apoio de uma fundação de ortodontia, sem participação no estudo, segundo o artigo.
Riscos e limites
Segundo a revisão narrativa de Fatani, as complicações da toxina botulínica nessa indicação são relatadas como pouco frequentes e, na maior parte, temporárias. A lista inclui dor, hematoma, inchaço, perda de força muscular e problemas de fala, de mastigação e de assimetria do sorriso. O autor também cita que uma dose acima do adequado pode causar queda do lábio, com cobertura dos dentes ao sorrir. O artigo não traz números de frequência.
A revisão de Rojo-Sanchis afirma que o uso da toxina para sorriso gengival é uma técnica nova, sem consenso e com indicação ainda mal definida. Por isso, vale perguntar na consulta médica como o médico enxerga esse uso, que produto será escolhido e se a situação específica consta na bula dele. Fatani lembra ainda que, como o efeito é temporário, a aplicação costuma precisar ser repetida, e que ela não é recomendada quando o paciente precisa de cirurgia.
Quando outras áreas entram
A revisão de 2024 de Inchingolo e colegas descreve a abordagem por causa. Na dentária, o ortodontista pode mover os dentes com aparelhos fixos e mini-implantes. Na esquelética moderada ou grave, a cirurgia ortognática é a opção descrita. Para a erupção passiva alterada, a revisão cita a ortodontia ou procedimentos periodontais e de tecidos moles. A mesma revisão cita estudo em que a cirurgia ortognática teve correção significativamente maior que a toxina botulínica em um mês, e outro em que a cirurgia deu melhor atratividade final do sorriso.
Por isso importa saber a causa e, quando for o caso, encaminhar a pessoa ao profissional de outra área.
Quando a toxina botulínica pode não ser indicada
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
Quando procurar um médico
A consulta médica é o momento de entender se o incômodo vem do músculo, do osso, do dente ou da gengiva, e de decidir se há algo a fazer, se outra área deve ser envolvida ou se não há necessidade de intervenção. Depois de qualquer aplicação, assimetria do sorriso, dificuldade para falar ou comer, queda do lábio e qualquer reação que preocupe justificam contato rápido com o médico responsável.
O sorriso envolve o rosto inteiro. Para entender a musculatura do rosto, leia os artigos sobre o terço médio da face e sobre o terço inferior da face.
Perguntas frequentes
Todo sorriso gengival vem do músculo?
Não. A literatura descreve causas esqueléticas, dentárias, gengivais e musculares, isoladas ou combinadas. A toxina botulínica é descrita apenas para a parte ligada à ação dos músculos do lábio.
A toxina botulínica resolve o sorriso gengival de forma definitiva?
Não. Nos estudos citados, o efeito foi temporário e os valores se aproximaram dos iniciais entre 12 e 24 semanas, ou em até um ano na metanálise de 2024.
Qualquer tamanho de exposição responde igual?
Segundo Zengiski e colegas, o efeito é descrito sobretudo para exposições de até 4 mm. Maleki e colegas observaram, aos 6 meses, efeito não cirúrgico menor nos casos graves.
Quem decide entre toxina, ortodontia ou cirurgia?
A decisão depende da causa e da conversa entre a pessoa e os profissionais envolvidos. Na consulta médica, a Dra. Mirele analisa o caso e, quando a causa está no osso ou no dente, a odontologia ou a cirurgia entram na discussão.
Existe uma dose padrão?
Não. A revisão de Rojo-Sanchis aponta falta de padronização de protocolo, e a definição cabe ao médico, caso a caso.
Referências
- Rojo-Sanchis C, Montiel-Company JM, Tarazona-Álvarez B, et al. Non-Surgical Management of the Gingival Smile with Botulinum Toxin A: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Clin Med, 2023;12(4):1433. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9965818
- Zengiski ACS, Basso IB, Cavalcante-Leão BL, et al. Effect and longevity of botulinum toxin in the treatment of gummy smile: a meta-analysis and meta-regression. Clin Oral Investig, 2022;26(1):109-117. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/34652491
- Maleki M, Huang B, Mendes VC, Caminiti MF, Finer Y. A Systematic Review and Meta-Analysis Comparing Surgical and Nonsurgical Treatments for Excessive Gingival Display. Dent J (Basel), 2024;12(6):154. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11203257
- Inchingolo AD, Inchingolo AM, Viapiano F, et al. Effectiveness and Personalized Approaches in the Correction of Gummy Smile: A Systematic Review of Orthodontic and Surgical Treatments. J Clin Med, 2024;13(22):6843. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11594777
- Fatani B. An Approach for Gummy Smile Treatment Using Botulinum Toxin A: A Narrative Review of the Literature. Cureus, 2023;15(1):e34032. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9941039
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
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