Terço inferior da face: o que muda com o tempo e os riscos

O terço inferior da face vai da base do nariz ao queixo e reúne os lábios, os cantos da boca, os sulcos que descem até o queixo, a mandíbula e a parte de cima do pescoço. É a região da fala, da mastigação e do sorriso, e por isso qualquer intervenção ali envolve função, além de aparência. Toxina botulínica tipo A e preenchimento com ácido hialurônico são descritos para algumas queixas da região, com limites e riscos que convém conhecer antes de qualquer decisão.
Resposta rápida: revisões descrevem, com os anos, remodelação do osso da mandíbula, descida de partes moles e perda de definição dos lábios. A toxina botulínica tipo A é descrita para os cantos da boca, o queixo, o músculo masseter e as bandas do pescoço, em parte em usos fora da bula, e o ácido hialurônico para lábios, queixo e sulcos. Como a região comanda sorriso, mastigação e fala, os riscos funcionais pesam na conversa. Na consulta médica, tudo é analisado em detalhe.
Este texto fecha uma série: antes vieram o terço superior e o terço médio, e a visão geral está em a toxina botulínica e os três terços da face.
Como o terço inferior envelhece
Segundo um consenso de especialistas de 2025 na Dermatol Surg, o envelhecimento de lábios, queixo e mandíbula combina remodelação do esqueleto, descida de partes moles e hiperatividade muscular. Segundo os autores, a perda de volume e as linhas ao redor da boca predominam em pessoas de ascendência europeia, e o queixo recuado e o contorno mandibular mais pesado são frequentes em populações do leste e do sul da Ásia. Uma das autoras tem vínculo com uma fabricante.
Revisão de 2016 na Facial Plast Surg, de Sebastian Cotofana e colegas, afirma que o envelhecimento ocorre em todas as camadas do rosto (osso, ligamentos, músculos, gordura e pele), com início e velocidade diferentes entre estruturas e pessoas.
Toxina botulínica no terço inferior: o que a literatura descreve
Revisão sistemática de 2026 na Ann Plast Surg, de Morvarid Mehdizadeh e colegas, reuniu 38 estudos sobre usos estéticos fora da bula, com 1.903 pacientes. A maior parte das intervenções (70,3%) tinha como alvo o terço inferior, com objetivos como a posição dos cantos da boca, a tensão do músculo mentual e o queixo recuado. A satisfação relatada foi de 94%, com complicações mínimas, mas os próprios autores pedem protocolos padronizados, e esses números não valem como promessa.
Um consenso de 14 especialistas italianos, publicado em 2026 na Toxins, descreve três músculos principais. No mentual, a indicação com mais concordância foi o queixo com aspecto de "casca de laranja". No depressor do ângulo da boca, os cantos da boca voltados para baixo. No platisma, as bandas do pescoço e o contorno da mandíbula. Os autores lembram que esses músculos têm papéis funcionais importantes, o que aumenta o risco de eventos adversos. Sobre o queixo, veja o queixo celulítico.
A página sobre toxina botulínica explica como funciona o atendimento médico.
Mandíbula e pescoço: masseter e platisma
Metanálise de 2026 na J Plast Reconstr Aesthet Surg, de Machado e colegas, incluiu cinco ensaios randomizados com 536 participantes sobre o masseter. Em comparação com placebo, houve redução da proeminência e da espessura do músculo no curto prazo, com heterogeneidade grande, e os autores afirmam que a evidência não basta para definir um protocolo ideal. O artigo sobre o masseter aprofunda o tema.
Para o platisma, metanálise de 2026 de Rahman Syed e colegas reuniu três ensaios randomizados com 912 participantes, a maioria com uma única sessão e seguimento de 120 dias. Eles testaram um único produto de referência. Eventos adversos surgiram em 22,6% de quem recebeu a toxina e em 26,6% de quem recebeu placebo, em geral hematoma leve no ponto de injeção, sem diferença entre os grupos. A amostra era em grande parte de mulheres brancas, o que limita a aplicação a outros grupos.
Preenchimento com ácido hialurônico: lábios, queixo e sulcos
Metanálise de 2026 na Aesthet Surg J, de Edward Wen e colegas, reuniu 16 ensaios randomizados com preenchimento labial. Estimou aumento da plenitude dos lábios em 60% dos participantes e algum evento adverso em cerca de metade deles, sobretudo inchaço, endurecimento e hematoma. Eventos graves foram raros. Nenhum desses números vale como promessa.
Para o queixo, revisão sistemática de 2026 na Aesthetic Plast Surg, de Alwathnani e colegas, reuniu 56 estudos com 4.844 pacientes. Com preenchedores, os eventos descritos foram na maioria passageiros (inchaço, hematoma e dor), com complicações vasculares graves raras. Os autores destacam que a evidência é limitada (estudos retrospectivos, amostras pequenas) e que nenhuma técnica, cirúrgica ou injetável, se mostrou superior em todos os casos.
A página sobre preenchimento com ácido hialurônico e a do preenchimento labial trazem mais informações, assim como o artigo sobre o preenchimento com ácido hialurônico. Para comparar as duas substâncias, há a diferença entre toxina e preenchimento.
Riscos funcionais: sorriso, mastigação e fala
Estudo de ultrassom de 2026 na Aesthet Surg J Open Forum, com 290 pacientes caucasianos, mostrou que o músculo depressor do ângulo da boca estava deslocado lateralmente em 79,8% deles em relação ao ponto de referência clássico (o resumo cita 2 a 5 mm) e que se continuava com o depressor do lábio inferior em 12%. Para os autores, injeções sem visualização podem reduzir o efeito e aumentar os efeitos colaterais.
Revisão narrativa de 2026 na Cureus, de Sara Freixo e Alexandre Camões-Barbosa, descreve a disfunção perioral (queda do lábio, perda de continência da boca e escape de saliva) como rara em estética, mas potencialmente incapacitante, ligada a dose ou posição inadequada perto do músculo que circunda a boca. A assimetria facial foi considerada relativamente comum, embora pouco quantificada, e em geral leve e passageira. Para a disfunção perioral, o manejo descrito é quase só conservador, com espera, e nenhuma alternativa foi testada de forma sistemática. A evidência é de nível baixo.
Na mastigação, estudo não randomizado de 2023 no J Oral Rehabil comparou 20 pessoas que receberam toxina nos dois masseteres com 12 sem intervenção: a redução da força de mordida era significativa aos três meses e deixou de ser aos seis. Sobre o osso, revisão sistemática de 2023 no mesmo periódico relatou, nos seis estudos em humanos com dados mandibulares, redução de cerca de 6% na espessura da cortical, sem mudança evidente de volume ou densidade; em animais, houve perda óssea no côndilo. Um ensaio de fase 2 de 12 meses, com 123 participantes na análise óssea, não achou alteração clinicamente significativa na densidade óssea da mandíbula. Testou um só produto, foi financiado por uma fabricante, que emprega vários autores, e cerca de 80% dos participantes eram de ascendência asiática.
No preenchimento, o risco vascular se repete no terço inferior. Um relato de caso de 2026 descreve uma mulher de 54 anos com dor e alteração da cor da pele do queixo em até 24 horas após uma aplicação de volume baixo; ela se recuperou em 21 dias com hialuronidase, enzima que desfaz o ácido hialurônico. Relato de caso não mede frequência. No relatório de 2025 da Academia Americana de Oftalmologia sobre perda de visão, entre 226 locais de injeção o lábio aparece em um e o queixo não consta; nariz, testa e glabela concentram a maioria. Isso indica zonas de maior risco, não ausência de risco no terço inferior.
Quando as intervenções no terço inferior podem não ser indicadas
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
Como parte dos usos descritos para a região é fora da bula, vale perguntar ao médico por que a técnica é adequada ao caso, que produto será usado e quais riscos se aplicam.
Como é a consulta médica
Na consulta médica, a Dra. Mirele Fadel conversa sobre a queixa, o histórico de saúde, as alergias, os medicamentos em uso e as expectativas, e analisa o rosto em repouso e em movimento, incluindo o modo como a pessoa sorri, fala e mastiga. Só depois se discute se existe alguma opção e quais seus riscos.
Depois de qualquer aplicação na região, dificuldade para engolir, falar ou respirar, dor intensa, mudança de cor da pele ou assimetria que incomoda justificam contato imediato com o médico responsável ou com um serviço de urgência.
Perguntas frequentes
O envelhecimento do terço inferior vem só da pele?
Não. As revisões citadas apontam osso, gordura, músculos e pele, em ritmos que variam entre as pessoas.
Para quais queixas a toxina é descrita no terço inferior?
Revisões descrevem os cantos da boca voltados para baixo, o queixo com aspecto de casca de laranja, o masseter e as bandas do pescoço. Parte desses usos é fora da bula, e a decisão cabe ao médico.
A toxina no masseter afeta a mastigação?
Em um estudo não randomizado de 2023, com 20 pessoas, a força de mordida ficou reduzida por ao menos três meses e, aos seis, a diferença deixou de ser significativa.
O preenchimento de lábios e queixo tem riscos?
Sim. Inchaço e hematoma são comuns e costumam passar. Complicações vasculares são raras e graves, e exigem reconhecimento e conduta rápidos.
Referências
- Mariwalla K, et al. Assessing the Lower Face: Lips, Chin, and Jawline. Dermatol Surg, 2025;51(12S):S23-S30. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41325036
- Cotofana S, et al. The Anatomy of the Aging Face: A Review. Facial Plast Surg, 2016;32(3):253-260. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/27248022
- Mehdizadeh M, et al. Beyond Wrinkles: Off-Label Aesthetic Uses of Botulinum Neurotoxin, a Systematic Review and Meta-analysis. Ann Plast Surg, 2026;96(4S Suppl 4):S124-S133. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41604510
- Fundarò S, et al. Italian Consensus and Review in Lower Face Mimetic Muscle Treatment with Botulinum Toxin-A. Toxins, 2026;18(8):332. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13517480
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Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
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