Fios de PDO: o que a literatura descreve, riscos e limites

Fios de PDO são fios cirúrgicos absorvíveis, feitos de polidioxanona, que o médico introduz sob a pele do rosto ou do pescoço. Revisões recentes relatam melhora nas escalas dos estudos logo após o procedimento, com seguimento de no máximo dois anos, e relatam complicações que vão de hematomas, retrações e assimetrias a, mais raramente, infecção e exteriorização do fio. Os dados vêm de amostras pequenas ou retrospectivas e não valem como promessa para ninguém. A decisão sobre usar ou não esses fios cabe ao médico, depois de uma consulta individual.
Resposta rápida: o PDO é um material absorvível que o corpo degrada com o tempo, usado em fios lisos, em fios com farpas (de tração) e em fios em espiral ou trançados, pensados para dar volume. A literatura descreve melhora imediata nas escalas dos estudos, falta de dados de longo prazo e uma taxa de complicações que depende do tipo de fio, do número de fios e da idade. Nenhuma fonte citada aqui permite prometer resultado. Na consulta médica, a Dra. Mirele Fadel analisa se o procedimento faz sentido para cada pessoa.
A página sobre fios de PDO no site da Dra. Mirele Fadel explica como é a consulta médica. Aqui estão o que foi publicado e onde as evidências são frágeis.
Os fios de PDO são absorvíveis e existem em formatos diferentes
Segundo revisão narrativa sobre anatomia, publicada em 2024 no J Cosmet Dermatol por Gi-Woong Hong e colegas, os fios absorvíveis usados para reposicionar tecidos podem ser lisos, torcidos ou com farpas, e são colocados na pele e em camadas mais profundas. Na literatura, aparecem:
- fios lisos;
- fios com farpas ou serrilhados, chamados de tração, que se prendem ao tecido;
- fios em espiral, descritos em estudo sobre o nariz para aumentar volume.
Em estudo de 2026 publicado na Plastic and Reconstructive Surgery Global Open, Jong Seo Kim acompanhou 23 pacientes que receberam fios em espiral no nariz. Em 13 deles, o ultrassom mostrou o diâmetro do fio diminuir de 1,113 mm no primeiro mês para 0,857 mm aos 12 meses, o que o autor interpreta como absorção gradual; o fio ainda estava presente aos 12 meses. É uma série retrospectiva de uma única clínica, em outra região do rosto e sem grupo de comparação.
A literatura descreve efeito imediato e poucos dados de longo prazo
Revisão sistemática de Alexandria Riopelle e colegas, publicada em 2025 na Dermatol Surg, analisou 12 estudos (818 participantes) sobre fios absorvíveis no terço médio e inferior da face, publicados entre 2018 e 2022. Os autores relatam que o fio mais usado foi o de polidioxanona e que as escalas usadas nos estudos (Global Aesthetic Improvement Scale, Wrinkle Severity Scale, escala de Barton e FACE-Q) mostraram variação favorável logo após o procedimento. O seguimento mais longo foi de dois anos, as complicações foram descritas como leves, e a conclusão dos próprios autores é que faltam dados de longo prazo.
Séries retrospectivas de clínicas, como a de 35 pacientes asiáticos publicada em 2018 por Hyejeong Lee e colegas, relatam complicações de baixa incidência e também assimetria, sem grupo de comparação. A promessa de duração, portanto, não tem base sólida, e a resposta varia de pessoa para pessoa.
As complicações mais relatadas são leves, mas existem eventos raros
A revisão sistemática de Avaneesh Ojha e colegas, publicada em 2025 na Dermatol Surg, reuniu 19 estudos com 1.406 pacientes e 876 complicações em fios absorvíveis de vários materiais. Os eventos mais frequentes foram equimose (19,49%), edema (16,79%) e dor à palpação (9,96%); os menos frequentes foram hematoma (0,64%), parestesia (1,14%) e infecção (2,49%). Os autores observaram mais complicações com fios com farpas do que com fios lisos ou em cone, e com fios flutuantes do que com fios fixados, e concluem que a taxa ficou abaixo de 5%. Os percentuais se referem a diferentes materiais, e não só ao PDO.
Um estudo multicêntrico retrospectivo, de Kohki Okumura e colegas, publicado em 2026 na Aesthetic Plastic Surgery, analisou 2.000 casos, selecionados ao acaso, de fios de PDO feitos em 105 clínicas no Japão, entre novembro de 2020 e dezembro de 2023. A taxa global de complicações foi de 12,4%. As mais comuns foram retração da pele (6,35%), assimetria (2,9%) e dor (1,75%). A análise estatística apontou que cada fio a mais aumentou a chance de complicação (razão de chances de 1,12 por fio) e que a idade também pesou: 2,14 para quem tinha 40 a 49 anos, 3,38 entre 50 e 59 e 5,08 a partir dos 60. Os dois trabalhos não são diretamente comparáveis.
Eventos menos frequentes aparecem em relatos de caso. Cheng-Kun Wang, em carta de 2020 na Dermatol Ther, descreve três pacientes com covinhas na pele e exteriorização do fio, tratadas com remoção do fio, manobra manual ou liberação da pele com agulha. A carta cita ainda um estudo de 148 pacientes em que a complicação mais comum foram as covinhas e as irregularidades, e em que também constaram equimose, extrusão, dor, hematoma, infecção e migração do fio.
Relato de caso de 2026, de Rhaina Setúbal e colegas, mostra o outro extremo: uma mulher de 42 anos, com diabetes, desenvolveu inchaço, dor e secreção após um procedimento no nariz com fios de PDO e preenchedor. O ultrassom encontrou um abscesso ao redor do nó de um fio, e o exame do tecido confirmou inflamação granulomatosa. O fio foi retirado e a paciente se recuperou. É um caso isolado, que mostra que infecção e reação a corpo estranho existem, sem estimar a frequência.
Há um efeito que só aparece depois. Estudo de Yordan Yordanov, de 2025, na Aesthetic Plastic Surgery, descreve dez pacientes (média de 59 anos) que haviam feito duas ou mais sessões de fios absorvíveis e depois passaram por cirurgia de rosto. Durante a operação, o autor encontrou fibrose, distorção do tecido e menor mobilidade de uma camada de sustentação do rosto, o que tornou a cirurgia mais demorada. O redrapeamento da pele ficou inadequado, com covinhas, em sete pacientes e paralisia temporária de um ramo do nervo facial em um. É série pequena de um único cirurgião, mas indica que o efeito no tecido pode durar mais do que o fio.
Pescoço, queixo e linha da mandíbula pedem atenção anatômica própria
A fonte mais útil sobre essas regiões é a revisão narrativa de Hong e colegas, que descreve a anatomia. Segundo os autores, o ramo marginal mandibular do nervo facial controla músculos do lábio inferior e do queixo e o ramo cervical alcança o platisma, músculo do pescoço. Os nervos ficam mais superficiais à medida que avançam em direção ao centro do rosto, e por isso o conhecimento dessas estruturas pesa na segurança. A parte final da artéria facial, perto da boca e do nariz, tem trajeto imprevisível, o que também pede cuidado.
Os mesmos autores descrevem o incômodo mais comum em torno da boca: dor ao mover os lábios, mais intensa na primeira semana, que costuma diminuir nas duas semanas seguintes e pode durar até um mês. Se os fios se prendem demais nos ligamentos de retenção do rosto, podem surgir covinhas persistentes, inclusive abaixo da mandíbula quando a ponta do fio engancha no ligamento mandibular.
Sobre o pescoço em si, a literatura é limitada. Nas buscas feitas para este texto, os trabalhos que o incluem misturam várias regiões do rosto, com o pescoço como minoria dos casos, ou são relatos de caso isolados; não encontramos estudo comparativo específico dessa região nem do queixo. Por isso, qualquer indicação nelas é assunto para discutir com cuidado na consulta médica.
Quando os fios de PDO podem não ser indicados
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
Também é razoável que a pessoa pergunte ao médico qual produto será usado, qual é o seu registro, que tipo de fio é e por que ele foi escolhido para o seu caso, quais complicações a literatura descreve e como elas são conduzidas.
A consulta médica analisa o histórico, a anatomia e as alternativas
Na consulta médica, a Dra. Mirele Fadel conversa sobre a queixa, o histórico de saúde, os medicamentos em uso e as expectativas, examina a anatomia do rosto e do pescoço e discute se existe outra opção mais adequada. A análise inclui a espessura da pele, a posição e a mobilidade dos tecidos, procedimentos já feitos na região e o que a literatura diz sobre riscos. A decisão de fazer ou não, quando e com qual técnica é individual.
Quem quer entender a região antes da consulta pode ler os artigos sobre o terço médio da face e o terço inferior da face, que explicam como a anatomia dessas áreas é descrita. Depois de qualquer procedimento com fios, dor que aumenta, vermelhidão com calor ou secreção, fio visível ou palpável na pele, assimetria que incomoda e dificuldade para mover a boca ou o rosto justificam contato rápido com o médico que fez o procedimento.
Perguntas frequentes
Os fios de PDO desaparecem do corpo?
O PDO é um material absorvível. Em estudo de 2026 com fios em espiral no nariz, o diâmetro do fio diminuiu ao longo de 12 meses, segundo o ultrassom, mas o fio ainda estava presente ao final. O tempo varia e não é garantia.
Quanto tempo dura o efeito descrito?
Não há número confiável. A revisão sistemática de 2025 relata seguimento máximo de dois anos e diz que faltam dados de longo prazo.
Quais complicações a literatura descreve?
Equimose, edema, dor, covinhas, retração da pele e assimetria são as mais citadas. Infecção, hematoma, parestesia, extrusão e migração do fio aparecem com menos frequência, segundo as revisões e os relatos citados.
Quantos fios aumentam o risco?
No estudo multicêntrico japonês de 2026, a chance de complicação cresceu a cada fio adicional, e a idade mais alta também se associou a mais complicações. O número ideal de fios, se existir, é decisão do médico.
O procedimento atrapalha cirurgias futuras?
Uma série de dez casos de 2025 descreve fibrose e distorção do tecido encontradas em cirurgias de rosto feitas depois de fios absorvíveis, com cirurgia mais demorada. Por isso, o histórico de procedimentos entra na conversa da consulta médica.
Referências
- Riopelle AM, Geisler AN, Eber A, Dover JS. Update on Absorbable Facial Thread Lifts. Dermatol Surg, 2025;51(5):509-514. doi.org/10.1097/DSS.0000000000004521 (resumo)
- Ojha AS, Farahbakhsh N, Saikaly SK. An Assessment and Comparison of Adverse Effect Rates in Differing Absorbable Thread Lift Suture Materials. Dermatol Surg, 2025;51(3):272-276. doi.org/10.1097/DSS.0000000000004466 (resumo)
- Okumura K, Tamura T, Funakoshi Y, Teranishi H. Incidence and Predictors of Complications After Polydioxanone Thread Lift: A Multicenter Retrospective Cohort Study. Aesthetic Plast Surg, 2026;50(13):4857-4865. doi.org/10.1007/s00266-026-05963-4 (resumo)
- Hong GW, Kim SB, Park Y, et al. Anatomical Considerations for Thread Lifting Procedure. J Cosmet Dermatol, 2024;24(1):e16618. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11743344
- Wang CK. Complications of thread lift about skin dimpling and thread extrusion. Dermatol Ther, 2020;33(4):e13446. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC7507174
- Yordanov YP. The Facelift After Thread Lifting: Surgical and Aesthetic Complications. Aesthetic Plast Surg, 2025;49(22):6234-6239. doi.org/10.1007/s00266-025-05091-5 (resumo)
- Setúbal RA, Solidonio RB, Martins LFB, et al. POCUS in the Management of Complications with Barbed Polydioxanone Threads in Aesthetic Medicine: Case Report. POCUS J, 2026;11(1):82-85. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13161767 (resumo)
- Kim JS. Coiled Polydioxanone Threads for Nasal Augmentation: Efficacy, Longevity, and Safety. Plast Reconstr Surg Glob Open, 2026;14(5):e7500. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13186152
- Lee H, Yoon K, Lee M. Outcome of facial rejuvenation with polydioxanone thread for Asians. J Cosmet Laser Ther, 2018;20(3):189-192. doi.org/10.1080/14764172.2017.1400167 (resumo)
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
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