Papada e ultrassom microfocado: o que se sabe

A "papada" é o nome popular do volume que se forma sob o queixo e que pode ter mais de uma origem: gordura acumulada logo abaixo da pele, flacidez da pele e dos tecidos de sustentação, posição do osso do queixo, músculo do pescoço e até a anatomia herdada. O ultrassom microfocado é uma das técnicas citadas pela literatura médica para essa região, mas as revisões consultadas o classificam entre as opções para a flacidez da pele, e não entre as usadas para reduzir gordura. Os resultados publicados variam muito de pessoa para pessoa, são em boa parte leves e não valem como promessa.
Resposta rápida: o ultrassom microfocado usa energia sonora concentrada em pontos pequenos, que aquecem camadas definidas da pele e do tecido logo abaixo. Uma revisão sistemática de 2023 reuniu 16 estudos. Nos que mediram a área sob o queixo em fotografias, os autores tratam a redução como elevação da pele. Dor moderada e vermelhidão passageira foram os efeitos mais frequentes. Queimaduras, estrias e alterações de sensibilidade foram descritas, de forma rara. Na consulta médica, a Dra. Mirele analisa a queixa, a anatomia e as alternativas antes de qualquer decisão.
O site traz uma página sobre o ultrassom microfocado, com informações sobre o procedimento. Este artigo reúne o que a pesquisa publicada mostra sobre o queixo e o pescoço, incluindo as incertezas.
Papada: gordura, pele e estrutura são coisas diferentes
Falar em "papada" junta situações que a medicina separa. Uma revisão sobre rejuvenescimento não cirúrgico do pescoço, publicada em 2023 na Clinics in Plastic Surgery por Angela Sturm e colegas, organiza as opções conforme o problema de base. Para o músculo do pescoço com bandas marcadas e pouca flacidez de pele, os autores citam a toxina botulínica. Para pele com flacidez leve a moderada, citam o ultrassom microfocado e a radiofrequência com microagulhamento. Para a gordura que fica acima do músculo, sob o queixo, a revisão lista radiofrequência percutânea, radiofrequência com plasma de hélio, injeções de ácido desoxicólico e crioterapia de gordura.
A divisão importa porque um mesmo aparelho não serve a todas as origens do volume, e muitas pessoas têm mais de uma. Na consulta médica, a Dra. Mirele examina o rosto e o pescoço em repouso e em movimento, pergunta sobre histórico de peso, de saúde e de procedimentos anteriores e só então discute o que faz sentido para cada caso.
O que é o ultrassom microfocado
Segundo a revisão sistemática de Mark Contini e colegas, publicada em 2023 na International Journal of Environmental Research and Public Health, a técnica converte energia de ultrassom em calor em pontos muito pequenos, de cerca de 1 mm³, a profundidades definidas. O calor provoca contração e desnaturação do colágeno nesses pontos, e os autores descrevem a formação de novo colágeno e de fibras elásticas por mais de um ano. A energia atinge a derme profunda e a camada de sustentação logo abaixo dela (o SMAS).
Esse mecanismo explica por que a literatura associa a técnica à firmeza da pele. A revisão usou como desfechos escalas globais de aspecto e a área sob o queixo em fotografias de perfil, e não relata medida da espessura da camada de gordura.
O que os estudos mediram na região submentoniana
Os números abaixo vêm de pesquisas. Eles descrevem grupos, não indivíduos, e não servem como expectativa para quem lê.
A revisão de Contini incluiu 16 estudos, todos com mulheres. Nos que mediram a região sob o queixo em fotografias de perfil, a revisão cita reduções de área entre 26 e 45 mm². Um dos estudos citados, com 78 participantes, relatou média de 45,2 mm² aos 90 dias. Outro, com 25 participantes, relatou 26,44 mm² aos 90 dias, mas 13,76 mm² aos 180 dias, valor sem significância estatística. Pelas escalas globais, a revisão agrupou 337 notas de investigadores dos próprios estudos aos 90 dias, para todas as áreas do rosto: 92% apontaram algum grau de melhora, a maior parte leve (47%). Entre as 81 notas das próprias pessoas, 42% descreveram melhora leve aos 90 dias e 25%, nenhuma mudança; o dado de 360 dias (53% de melhora leve) vem de apenas 19 notas. Os autores afirmam que os estudos examinaram só a aplicação única, que faltam dados de longo prazo e que os homens ficaram sem estudo.
Um estudo prospectivo publicado em 2025 (versão online) na Aesthetic Plastic Surgery, de Li e colegas, acompanhou 28 mulheres de 33 a 55 anos por 12 meses depois de uma única sessão. A região sob o queixo apresentou redução média de 1,26 mL (desvio de 2,22) em exame tridimensional aos 12 meses, e os autores a descrevem como a região de resultado mais duradouro. O volume medido não separa gordura de pele, o resumo não menciona grupo de comparação, e os autores declaram não ter conflito de interesse.
Há também resultados menos favoráveis. Em estudo retrospectivo turco de 2020, publicado na revista Dermatol Ther, com 24 pessoas examinadas, em mediana, 4,3 meses depois de uma sessão, dois revisores cegados, segundo os autores, compararam fotos de antes e depois: 5 casos (20,9%) apresentaram melhora, 15 (62,5%) ficaram sem mudança e 4 (16,7%) foram classificados como piores. Pelo relato das próprias participantes, 11 (45,9%) perceberam melhora e 9 (37,5%) não notaram mudança. Os autores sugerem que a fotografia talvez não capte o que as pessoas sentem.
O que a revisão diz sobre flacidez e gordura
A revisão de Contini registra que a resposta diminuiu quando a flacidez era mais intensa e quando havia mais gordura ou índice de massa corporal mais alto. Excesso de flacidez foi critério de exclusão em quatro estudos, e excesso de gordura ou índice de massa corporal acima de 30, em dois. Eles também afirmam que, quando a flacidez é acentuada, a cirurgia pode ser uma alternativa a considerar.
Para a gordura acumulada, a revisão de Sturm trata de outras opções, discutidas abaixo.
Riscos, dor e efeitos descritos
A revisão de Contini reuniu 565 participantes de 13 estudos que mediram dor, com média de 3,8 em uma escala de 0 a 10, e médias entre 2,5 e 6,1 conforme o estudo. As regiões ao redor dos olhos e sob a mandíbula foram as mais dolorosas. Vermelhidão passageira, com ou sem inchaço, ocorreu em quase todas as pessoas. Entre 573 pessoas acompanhadas quanto a efeitos adversos, 14 (cerca de 2%) tiveram eventos menos comuns: manchas roxas e alteração temporária de sensibilidade em 4 cada, queimaduras de pele em 2, estrias brancas lineares no pescoço em 2, um vergão na bochecha e uma pápula branca no pescoço. O resumo da revisão cita ainda queimadura na região da mandíbula e dermatite de contato.
No estudo de Li, as reações foram vermelhidão em 67,9% das participantes e inchaço em 28,6%, resolvidos em até uma semana. Em um ensaio clínico randomizado de 2023 com 20 mulheres, publicado na Dermatol Ther (Heidelb), a dor média foi de 3,0 em 10, sem anestesia oral, intramuscular nem tópica. A revisão de Contini declara não ter recebido financiamento externo nem conflito de interesse, mas não informa quem patrocinou cada estudo incluído.
Alternativas discutidas na literatura
Para a gordura submentoniana, a revisão de Sturm lista radiofrequência percutânea, radiofrequência com plasma de hélio, injeções de ácido desoxicólico e crioterapia de gordura, e afirma que, entre elas, a radiofrequência percutânea teve a maior satisfação e a menor taxa de complicações. Segundo uma revisão sistemática publicada online em 2025 na Plastic and Reconstructive Surgery, sobre injetáveis em outras regiões do corpo, o ácido desoxicólico continua sendo o único injetável aprovado pela agência regulatória dos Estados Unidos para gordura submentoniana. Isso é um dado de outro país e não indica o que vale no Brasil.
Uma meta-análise de 2025 na Facial Plastic Surgery, de Kenny Do e colegas, reuniu oito estudos de crioterapia de gordura na região, com 206 pacientes, e calculou redução média de 2,78 mm na espessura da gordura submentoniana. Os estudos eram de antes e depois, sem grupo de comparação, o que limita a conclusão. Cada opção traz riscos próprios, e a decisão cabe ao médico.
Quando o ultrassom microfocado pode não ser indicado
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
Vale perguntar ao médico por que ele considera a técnica adequada para o seu caso, o que se espera medir, em quanto tempo e quais riscos a literatura descreve. Vale perguntar também se o aparelho tem registro na Anvisa.
O que a consulta médica analisa
Na consulta médica, a Dra. Mirele conversa sobre a queixa, examina a região do queixo e do pescoço e discute com a pessoa se o volume vem de gordura, de pele, de estrutura ou de uma soma desses fatores. Ela analisa o histórico de saúde, o peso e suas variações, as alergias, os medicamentos em uso e procedimentos já feitos. Com isso, apresenta as possibilidades, os riscos e as incertezas de cada uma, inclusive a de apenas acompanhar.
Depois de qualquer procedimento, sinais como dor que aumenta, bolhas, queimadura, área endurecida, dormência persistente ou assimetria do sorriso justificam contato rápido com o médico responsável. Quem quer entender melhor o contorno do rosto pode ler o artigo sobre o terço inferior da face e o texto sobre o queixo celulítico.
Perguntas frequentes
O ultrassom microfocado reduz a gordura sob o queixo?
A revisão de 2023 o descreve para a flacidez da pele, e os desfechos foram medidas de área e escalas de aspecto, não a espessura da gordura. Para a gordura, a literatura discute outras opções, cada uma com seus limites.
Quanto tempo dura o efeito descrito nos estudos?
Não há número único. Em um estudo citado pela revisão de Contini, a redução de área deixou de ser significativa aos 180 dias; no de Li, houve redução média pequena aos 12 meses.
O procedimento dói?
A revisão relata dor média de 3,8 em 10, com variação entre estudos, em parte com anestésico tópico ou analgésicos.
Todo mundo responde do mesmo jeito?
Não. Em um estudo retrospectivo de 2020, mais da metade dos casos ficou sem mudança nas fotos analisadas por médicos, e a revisão de 2023 aponta resposta menor com flacidez mais intensa e mais gordura.
Há risco de queimadura?
A revisão de 2023 descreve queimaduras de pele de forma rara, entre os eventos menos comuns, ao lado de estrias, manchas roxas e alterações de sensibilidade.
Referências
- Contini M, Hollander MHJ, Vissink A, Schepers RH, Jansma J, Schortinghuis J. A Systematic Review of the Efficacy of Microfocused Ultrasound for Facial Skin Tightening. Int J Environ Res Public Health, 2023;20(2):1522. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9861614
- Li X, Xie G, Yang Z, et al. Evaluating the Long-term Effects of Microfocused Ultrasound on Facial Tightening Using Quantitative Instruments: Efficacy and Safety. Aesthetic Plast Surg, 2026;50(2):692-706 (publicado online em 2025). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40931143
- Yalici-Armagan B, Elcin G. Evaluation of microfocused ultrasound for improving skin laxity in the lower face: a retrospective study. Dermatol Ther, 2020;33(6):e14132. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32770566
- Zhu J, Han Y, Liu Y, et al. Evaluation of a Novel Microfocused Ultrasound with Three-Dimensional Digital Imaging for Facial Tightening: A Prospective, Randomized, Controlled Trial. Dermatol Ther (Heidelb), 2023;14(1):233-249. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC11756818
- Sturm A, Shokri T, Ducic Y. Nonsurgical Rejuvenation of the Neck. Clin Plast Surg, 2023;50(3):497-507. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37169415
- Do K, Ghani N, Lloyd N, et al. Cryolipolysis for Submental Fat Reduction: A Systematic Review and Meta-Analysis. Facial Plast Surg, 2025;41(5):650-663. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40473257
- Carrion K, Salingaros S, Bernal C, et al. A Systematic Review of Injectable Lipolytic Agents for Nonsubmental Fat Reduction. Plast Reconstr Surg, 2026;158(3):414-423 (publicado online em 2025). pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41296813
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
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