Pele do corpo: flacidez, celulite e o que dizem as revisões

A pele do corpo recebe menos atenção que a do rosto, mas passa pelas mesmas mudanças: com o tempo perde colágeno e elastina, e variações de peso, sol e hábitos deixam marcas. A literatura médica separa duas queixas que se confundem no espelho, a flacidez (perda de firmeza) e a celulite (alteração do relevo), e é clara em um ponto: os estudos sobre injetáveis no corpo são poucos, pequenos e, em boa parte, de qualidade baixa. Nenhum deles permite prometer resultado a quem lê. A decisão de fazer ou não qualquer procedimento é do médico, depois de uma consulta individual.
Resposta rápida: flacidez é a pele que perde sustentação; celulite é um desenho irregular da superfície, ligado às fibras que prendem a pele às camadas mais profundas. Revisões descrevem bioestimuladores de colágeno e ácido hialurônico aplicados no corpo, mas a maior parte dos dados vem de relatos de caso e estudos retrospectivos, com poucas pessoas e acompanhamento curto. Há riscos documentados, como nódulos, assimetrias e, nos glúteos, complicações graves. Na consulta médica, tudo é analisado em detalhe.
O site tem uma página sobre flacidez corporal e outra sobre bioestimulador de colágeno, com informações sobre a consulta médica. Este artigo reúne o que a pesquisa descreve, sem indicar nada.
Flacidez, celulite e qualidade da pele são ideias diferentes
"Qualidade da pele" é um termo amplo, que reúne textura, hidratação e elasticidade. Flacidez é firmeza; celulite é relevo. Podem aparecer juntas em coxas e glúteos, e por isso a análise começa separando uma da outra. Segundo a revisão de Gabriel e colegas, publicada em 2023 na Aesthetic Surgery Journal Open Forum, o primeiro passo é identificar quanto do aspecto vem de flacidez, de atrofia da derme, de perda de volume ou de acúmulo de gordura. O artigo sobre as queixas corporais mais comuns aprofunda essa diferença.
Celulite: o que é e o que ela não é
Gabriel e colegas descrevem a celulite como condição que atinge sobretudo mulheres depois da puberdade, com aspecto de casca de laranja ou de colchão. A estimativa de 80% a 90% das mulheres depois da puberdade se repete na literatura, mas os autores observam que há pouquíssimos dados epidemiológicos sólidos por trás dela; não é previsão individual. A hipótese mais aceita é arquitetural: fibras de tecido conjuntivo prendem a pele ao fundo, e o equilíbrio de forças entre essas fibras, a gordura e a derme define se o relevo fica liso ou irregular.
Isso desfaz duas ideias comuns. Celulite não é sinal de excesso de peso: o peso mais alto acentua as covinhas, mas o mecanismo está na estrutura sob a pele. E emagrecer não garante a saída delas: as células de gordura aumentam e diminuem com o peso, enquanto a rede de fibras se estica com o ganho e não volta ao tamanho original com a perda.
A revisão traz ainda um alerta. Lipoatrofia (perda de gordura), edema generalizado e linfedema podem parecer celulite, e usar nesses casos abordagens pensadas para celulite pode agravar o quadro. Os autores resumem o cenário: não há tratamento eficaz para a celulite, a maioria tem resposta imprevisível e as mudanças de aspecto costumam durar pouco.
Flacidez: o que muda na pele do corpo com o tempo
De acordo com Gabriel e colegas, o envelhecimento reduz o colágeno e a elastina da derme, as proteínas que sustentam a pele. Variações grandes de peso também pesam: os autores recomendam evitar perdas excessivas, que podem aumentar a flacidez e acentuar a celulite.
Revisão narrativa de 2026 sobre estilo de vida e pele, de Nwaopara e Woolery-Lloyd, adverte que a maioria dos estudos descreve associações, não causa e efeito. Relata que o exercício regular se associa a mais espessura da derme, com dados em boa parte de animais e de medidas no rosto.
O que as revisões dizem sobre bioestimuladores no corpo
Bioestimuladores de colágeno são substâncias injetáveis descritas como capazes de estimular a produção do colágeno do próprio organismo. Segundo a revisão de Christen, de 2022, esses produtos foram desenvolvidos originalmente para a face, e o uso em pescoço, colo, glúteos, abdome, braços, coxas, joelhos e mãos se ampliou depois. Foram reunidos 49 artigos, com foco no ácido poli-L-lático; o resumo não informa vínculos. Vale perguntar ao médico se a aplicação no corpo consta da indicação registrada do produto.
O panorama é de evidência limitada. Os estudos se concentram em pescoço e colo (dez) e glúteos (nove); nas demais áreas são poucos e, em sua maioria, relatos de caso ou análises retrospectivas. A própria revisão reconhece que o uso se baseia mais na experiência dos médicos do que em grandes estudos e que o acompanhamento costuma ser curto demais para dizer quanto dura um efeito. Parte das pesquisas combinou o injetável com subcisão, que corta as fibras sob a pele; aí, o observado não é atribuível só ao injetável.
Entre as pesquisas mais controladas está um ensaio de 2023, de Almukhtar e colegas, com 20 mulheres com flacidez leve a moderada nos glúteos e nas coxas, associada a celulite leve a moderada. Cada lado do corpo recebeu o produto ou água bacteriostática, sem que as participantes soubessem, e o acompanhamento durou 330 dias. Os autores relataram menor profundidade das depressões e melhor grau de flacidez nos glúteos tratados, sem efeitos colaterais significativos. A amostra é pequena, de um único centro, e o resumo não informa quem financiou o estudo. Os dados não valem como expectativa para quem lê.
Ácido hialurônico no corpo: volume, não firmeza
Os estudos citados aqui medem volume e contorno dos glúteos, não firmeza da pele. Em revisão de 2022 na Aesthetic Plastic Surgery, Atiyeh e colegas encontraram só 12 relatos clínicos sobre preenchedores nos glúteos, quase todos com viés importante e evidência de nível baixo; quatro eram com ácido hialurônico. Os autores concluem que a prática não é tão simples nem tão inofensiva quanto se anuncia e que ocorrem complicações graves, principalmente quando feita por quem não tem formação ou fora de serviços regulamentados.
Em estudo prospectivo de 2025, Bussade e colegas acompanharam 30 mulheres por 12 meses, sem grupo de comparação. A satisfação relatada foi de 90% no 30º dia e de 62% em 12 meses, o que os autores associam à degradação gradual do produto; não houve eventos graves. O resumo não informa financiamento nem vínculos, e os percentuais não valem como expectativa. Em estudo retrospectivo de 2026, Hur e colegas relataram 26 mulheres de uma só clínica, acompanhadas por seis meses, 19,2% delas com eventos menores, como inchaço, manchas roxas e endurecimento passageiro. Os autores escrevem que há poucos dados e que o ácido hialurônico ainda não é padrão de cuidado diante do enxerto de gordura e dos implantes. Um dos autores tem afiliação a uma empresa. Sobre o tema, há os artigos o preenchimento com ácido hialurônico e complicações com preenchimento.
Riscos e limites descritos
Na revisão de Christen, os eventos mais citados nos estudos de corpo foram dor, hematoma e inchaço no local, em geral leves e passageiros. Nos glúteos, a autora lista como possíveis complicações a assimetria, as irregularidades de contorno, a infecção e a necrose, e destaca a necessidade de conhecer bem a anatomia da região.
Revisão sistemática de 2025, de Wang e colegas, analisou 40 estudos, com 117 pessoas, sobre granulomas de corpo estranho, reações do organismo ao material injetado, ligadas a bioestimuladores. O nódulo foi a manifestação mais comum; o tempo até o aparecimento foi de uma semana a 15 anos; e os sintomas costumavam se resolver com retirada cirúrgica. Os autores afirmam que todos os bioestimuladores incluídos podem causar a reação, com maior incidência relatada nos não degradáveis. A região mais relatada foi a da boca, ou seja, o rosto. Por reunir relatos de caso, a revisão não estima a frequência do problema.
Hábitos de cuidado com a pele do corpo
Sol. A Organização Mundial da Saúde lista a perda de elasticidade em idade jovem entre os efeitos crônicos da radiação ultravioleta. Recomenda limitar o tempo ao sol no meio do dia, procurar sombra, usar roupas e chapéu, reservar o protetor de amplo espectro para as áreas descobertas, sem prolongar a exposição, e evitar câmaras de bronzeamento. O artigo 7 dicas para garantir sua proteção solar detalha o tema.
Cigarro, álcool, sono e estresse. Na revisão de estilo de vida, tabagismo e consumo elevado de álcool aparecem de forma consistente associados a sinais de envelhecimento; um estudo com 301 adultos no Brasil ligou a carga de tabaco a rugas faciais, mesmo ajustando idade e exposição solar. Sono curto e estresse crônico foram ligados à recuperação mais lenta da barreira da pele. São associações, em boa parte medidas no rosto, e os autores pedem estudos de acompanhamento.
Quando um procedimento no corpo pode não ser indicado
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
O que a consulta médica analisa
A consulta médica é o momento de separar a queixa em partes. A Dra. Mirele Fadel conversa sobre o histórico de saúde, os medicamentos em uso, a variação de peso, a exposição ao sol e o que a pessoa espera, e examina a região. Entram na conversa os limites da evidência, os riscos e as alternativas, inclusive não fazer nada. Depois de qualquer aplicação, dor que aumenta, febre ou área endurecida, quente ou muito escura justificam contato rápido com o médico responsável.
Para outro recorte do contorno corporal, leia o artigo sobre gordura localizada no abdome e o texto sobre bioestimuladores de colágeno.
Perguntas frequentes
Celulite e flacidez são a mesma coisa?
Não. Flacidez é a perda de firmeza da pele; celulite é uma alteração do relevo ligada às fibras sob a pele. Podem coexistir.
Emagrecer elimina a celulite?
Segundo Gabriel e colegas, a rede de fibras se estica com o ganho de peso e não volta ao tamanho original com a perda. Perdas muito grandes ainda podem aumentar a flacidez.
Os bioestimuladores no corpo têm estudos sólidos?
Há alguns ensaios pequenos, mas a revisão de 2022 afirma que o uso se apoia mais na experiência clínica do que em grandes estudos.
Protetor solar no corpo faz diferença?
A OMS recomenda sombra, roupas e chapéu, com protetor nas áreas descobertas, e lista a perda de elasticidade em idade jovem entre os efeitos da radiação ultravioleta.
Referências
- Gabriel A, Chan V, Caldarella M, et al. Cellulite: Current Understanding and Treatment. Aesthet Surg J Open Forum, 2023;5:ojad050. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10324940
- Christen MO. Collagen Stimulators in Body Applications: A Review Focused on Poly-L-Lactic Acid. Clin Cosmet Investig Dermatol, 2022;15:997-1019. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9233565
- Almukhtar RM, Wood ES, Loyal J, et al. A Randomized, Single-Center, Double-Blinded, Split-Body Clinical Trial of Poly-L-Lactic Acid for the Treatment of Cellulite of the Buttocks and Thighs. Dermatol Surg, 2023;49(4):378-382. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/36826378
- Wang H, Wu D, Lo C, et al. Foreign Body Granulomas Reaction Related to Collagen Stimulatory Cosmetic Fillers: A Systematic Review. J Cosmet Dermatol, 2025;24(10):e70459. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12550546
- Atiyeh B, Ghieh F, Oneisi A. Safety and Efficiency of Minimally Invasive Buttock Augmentation: A Review. Aesthetic Plast Surg, 2022;47(1):245-259. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/35999464
- Bussade M, Faria G, Barros M, et al. Assessment of Hyaluronic Acid Filler in Gluteal Augmentation and Contouring: A 1-Year Prospective Study. J Cosmet Dermatol, 2025;24(12):e70600. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12719548
- Hur JH, Cho YK, Song JK, et al. Clinical Evaluation of Hyaluronic Acid Filler for Gluteal Augmentation: A Retrospective Study. Plast Reconstr Surg Glob Open, 2026;14(7):e7962. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13406061
- Nwaopara A, Woolery-Lloyd H. A Review of the Effects of Lifestyle Factors on Skin Aging. Am J Lifestyle Med, 2026. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13179309
- Organização Mundial da Saúde. Ultraviolet radiation (folha informativa). who.int/news-room/fact-sheets/detail/ultraviolet-radiation
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
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