Têmporas e envelhecimento: o que a literatura médica descreve

As têmporas, a região lateral da testa entre a sobrancelha e a orelha, costumam ser uma das primeiras áreas do rosto a mostrar a passagem do tempo: com os anos, a superfície que era plana ou levemente curva passa a afundar. A literatura médica atribui esse afundamento à redução da gordura e do músculo da região e a mudanças no osso. Revisões publicadas nos últimos anos também descrevem o uso de preenchedores nas têmporas e, ao mesmo tempo, alertam para um risco que quase não aparece em outras áreas: a quantidade de vasos importantes que passam ali, em profundidades variáveis.
Resposta rápida: o afundamento temporal vem da soma de menos gordura, menos músculo e mudanças no osso. Uma revisão sistemática de 2025 reuniu 40 estudos sobre preenchedores injetáveis na região e relatou dor, hematoma e inchaço como eventos mais comuns, com eventos vasculares raros, porém graves quando ocorrem. Para bioestimuladores, a base de dados é bem menor. Nada disso vale como promessa de resultado. Na consulta médica, a Dra. Mirele analisa se faz sentido discutir qualquer procedimento nessa região.
O que muda nas têmporas com o passar dos anos
No artigo de 2015 de Margit Juhász e Ellen Marmur, o envelhecimento facial aparece como um conjunto de mudanças: afinamento da epiderme, perda de elasticidade, atrofia de músculo e de gordura subcutânea e alterações ósseas, tudo isso resultando em perda de volume. Na região temporal, segundo as autoras, o osso temporal fica mais côncavo, o músculo temporal atrofia e o coxim de gordura diminui. O resultado descrito é uma aparência mais encovada.
Outras fontes descrevem o mesmo conjunto. Thomas Tzikas, em artigo de 2018 sobre enxertia de gordura, aponta como manifestações primárias do envelhecimento a redução do volume do tecido subcutâneo, especialmente a atrofia da gordura, e a perda de volume ósseo. Ele afirma que essas perdas ficam evidentes nas regiões da sobrancelha e das têmporas, onde acentuam a aparência de sobrancelha caída. Já o resumo de um estudo coreano de 2024 sobre a artéria temporal superficial, de Bae e colegas, afirma que a atrofia da gordura temporal acentua o arco zigomático (o osso da maçã do rosto) e a borda lateral da órbita, o que contribui para o aspecto envelhecido.
O osso também muda, mas os estudos olham o rosto como um todo
Uma revisão de 2026 na JPRAS Open, de Kar Wai Alvin Lee e colegas, reuniu estudos de imagem e de medidas sobre o esqueleto facial. Segundo o resumo, a perda óssea acontece ao longo de toda a vida adulta e varia de região para região: a órbita aumentou em média 15% a 20% por volta da sétima década e a altura da maxila diminuiu de 8% a 15%. Esses números não se referem às têmporas em particular, e o resumo não detalha essa região. Eles mostram que o osso do rosto não é fixo e que a variação entre pessoas é grande, o que ajuda a entender por que duas pessoas da mesma idade podem ter têmporas bem diferentes.
Por que a anatomia da região pede tanta cautela
A fossa temporal, o espaço côncavo ocupado pelo músculo temporal, é atravessada por artérias, veias e um ramo do nervo facial, em camadas diferentes. Os estudos de anatomia mostram que o mapa desses vasos varia de pessoa para pessoa.
Em um estudo de 2022, Hyun Jin Park e colegas estudaram 43 cadáveres coreanos seccionados ao meio e encontraram a artéria zigomático-orbital em 85,2% dos casos. Por cálculo simples a partir desse número, ela estaria ausente nos 14,8% restantes. Os autores recomendam que se verifiquem a existência dessa artéria e o trajeto da temporal superficial antes de procedimentos na região.
Em 2026, uma equipe turca de Baris Ten usou imagem de microcirculação, em 62 pacientes para a artéria superficial e 56 para a profunda, e relatou que as artérias temporais superficial e profunda podem correr em profundidades variáveis: em alguns casos, a profunda estava a 0,3 milímetro do osso e a superficial, a 1,15 milímetro da pele.
As veias também entram na conta. Segundo revisão sistemática de 2020 sobre a veia temporal média, o calibre dessa veia variou de 0,5 a 9,1 milímetros entre os estudos, e os autores relacionam uma injeção acidental nela a uma complicação grave: a embolia pulmonar não trombótica.
O que as revisões dizem sobre preenchimento com ácido hialurônico nas têmporas
Em 2025, Daniel Friedmann e colegas publicaram na Aesthetic Plastic Surgery uma revisão sistemática sobre o volume temporal com preenchedores injetáveis. Segundo o resumo, os autores pesquisaram quatro bases de dados e incluíram 40 artigos, dos quais 19 eram estudos prospectivos e 21 retrospectivos, e 9 destes eram relatos de complicação. Ao todo, 881 pacientes receberam algum material: 783 ácido hialurônico, 93 hidroxiapatita de cálcio, 28 polimetilmetacrilato, 10 matriz de gordura de doador e 2 ácido poli-L-lático.
Os autores relatam que os dados reunidos indicaram escores mais favoráveis nas escalas de afundamento temporal e de aspecto geral, além de satisfação dos participantes. Essa é a leitura dos autores sobre estudos de tamanhos e desenhos diferentes, incluindo relatos de caso. Ela descreve um grupo de estudos e não prevê o que acontece com quem lê: a resposta é individual.
A revisão também trata da segurança. Os eventos mais comuns foram dor, sensibilidade ou pressão (29,6%), equimose (17,3%) e inchaço (15,5%). Eventos vasculares e outros eventos graves foram considerados raros. Os autores observam ainda que planos mais profundos de injeção podem estar mais associados a dor ou desconforto ao mastigar. A substância tem página própria neste site: preenchimento com ácido hialurônico.
Bioestimuladores nas têmporas: a base de estudos é menor
Bioestimuladores de colágeno são substâncias injetadas com a finalidade descrita de estimular o próprio organismo a produzir tecido. O artigo sobre bioestimuladores de colágeno explica o conceito, e a página dos bioestimuladores traz o que se sabe sobre o procedimento.
Na região temporal, a quantidade de estudos é menor. Na revisão de 2025, apenas 93 dos 881 pacientes receberam hidroxiapatita de cálcio e 2 receberam ácido poli-L-lático, segundo o resumo. Para esses materiais, os números são pequenos e qualquer afirmação nessa área pede cautela.
Riscos e complicações descritos na literatura
Juhász e Marmur listam como complicações do preenchimento com ácido hialurônico na fossa temporal os hematomas, a sensibilidade, o inchaço, o efeito Tyndall (um tom azulado visto através da pele), a correção excessiva e o desconforto ao mastigar. Entre as complicações raras, citam infecção, granuloma de corpo estranho, necrose por oclusão de vaso e cegueira por embolia para a artéria oftálmica.
A literatura sobre esse último ponto é sóbria. Uma revisão sistemática de 2023 reuniu 243 casos publicados, com fotografias, de isquemia da pele facial por oclusão vascular após preenchedores. Quando a pele da área da artéria oftálmica estava envolvida, a perda de visão foi relatada em 39% dos casos, contra 0,8% quando não estava. Esse trabalho trata do rosto todo, e não só das têmporas, e descreve casos publicados, o que não permite calcular a frequência real do problema. Já outra revisão sistemática, de 2020, examinou o uso de hialuronidase injetada atrás do olho para reverter a cegueira causada por preenchedor: em 9 pacientes descritos, houve melhora da visão em 2, e os autores concluem que ainda não há evidência suficiente para sustentar esse tratamento.
Por isso Juhász e Marmur afirmam que quem injeta precisa conhecer as complicações possíveis. O artigo sobre complicações com preenchimento de ácido hialurônico trata o tema com mais detalhe. Quem notar dor intensa, alteração da visão, mudança de cor da pele ou qualquer sintoma que preocupe depois de um procedimento deve procurar atendimento médico imediatamente.
Quando o preenchimento nas têmporas pode não ser indicado
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
Também é razoável perguntar se o incômodo vem mesmo das têmporas. A região se relaciona com a sobrancelha e a órbita, tema do artigo sobre o terço superior da face.
Como a consulta médica analisa a região
Na consulta médica, a Dra. Mirele Fadel analisa o rosto em repouso e em movimento, a espessura e a qualidade da pele, a posição das sobrancelhas e a relação das têmporas com o restante da face. Também ouve a queixa, o histórico de saúde, as alergias, os medicamentos em uso e as expectativas, e explica o que a literatura relata, o que ainda é incerto e quais riscos existem no caso de cada pessoa. A decisão de fazer ou não qualquer procedimento só vem depois dessa conversa, e pode ser adiada ou recusada a qualquer momento.
O artigo sobre o preenchimento com ácido hialurônico complementa este texto com a visão geral da substância.
Perguntas frequentes
Por que as têmporas ficam afundadas com a idade?
Segundo as revisões citadas, por uma combinação de redução da gordura temporal, atrofia do músculo temporal e mudanças no osso. O peso de cada fator varia de uma pessoa para outra.
Preenchimento nas têmporas é seguro?
A revisão de 2025 relata como eventos mais comuns dor, equimose e inchaço, e eventos vasculares raros, mas graves. Como a região tem muitos vasos e varia entre as pessoas, a segurança depende de conhecimento de anatomia, de quem faz o procedimento e de cada caso, e nenhum texto consegue assegurá-la.
Há estudos sobre bioestimuladores nas têmporas?
Poucos. Na revisão de 2025, a maior parte dos pacientes recebeu ácido hialurônico, e os números para outros materiais são pequenos. A decisão cabe ao médico, depois da consulta.
O que fazer depois de um procedimento se algo parecer errado?
Dor intensa, alteração na visão, pele que muda de cor ou dificuldade para mastigar justificam contato rápido com o médico que fez o procedimento ou com um serviço de urgência.
Referências
- Juhász MLW, Marmur ES. Temporal fossa defects: techniques for injecting hyaluronic acid filler and complications after hyaluronic acid filler injection. J Cosmet Dermatol, 2015;14(3):254-259. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26311237
- Tzikas TL. Fat Grafting Volume Restoration to the Brow and Temporal Regions. Facial Plast Surg, 2018;34(2):164-172. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/29631287
- Bae JH, Park SH, Yi KH. Consideration of the diameter of superficial temporal arteries related to filler injections in the temporal region. Skin Res Technol, 2024;30(4):e13674. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10982667
- Lee KWA, Zamin RZ, Sobchyshyn M, et al. Facial bone aging: an update and literature review. JPRAS Open, 2026;48:828-845. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12914125
- Park HJ, Lee JH, Jung W. The Superficial Temporal Artery and Zygomatico-Orbital Artery: Superficial Arterial Distribution of the Anterior Temple Area. Biomed Res Int, 2022;2022:3790546. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9162877
- Ten B, Dursun P, Kaya TI, et al. Temporal Artery Mapping With Microvascular Imaging: Anatomical Considerations for Filler Injections. Dermatol Surg, 2026;52(7):672-677. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41512153
- Kapoor KM, Bertossi D, Li CQ, et al. A Systematic Literature Review of the Middle Temporal Vein Anatomy: 'Venous Danger Zone' in Temporal Fossa for Filler Injections. Aesthetic Plast Surg, 2020;44(5):1803-1810. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/32472312
- Friedmann DP, Hinchee-Rodriguez K, Verma KK. Nonsurgical Temple Volumization with Soft-Tissue Fillers: A Systematic Review of the Literature. Aesthetic Plast Surg, 2025;49(19):5237-5251. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40325223
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- Paap MK, Milman T, Ugradar S, et al. Examining the Role of Retrobulbar Hyaluronidase in Reversing Filler-Induced Blindness: A Systematic Review. Ophthalmic Plast Reconstr Surg, 2020;36(3):231-238. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/31880685
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
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