Toxina botulínica nos 3 terços da face

Na análise facial, o rosto costuma ser dividido em três terços: o superior, da linha do cabelo até as sobrancelhas; o médio, das sobrancelhas à base do nariz; e o inferior, da base do nariz ao queixo. A toxina botulínica tipo A é usada em procedimentos estéticos nos três, sempre sobre músculos específicos e com efeito temporário. A divisão em terços é uma referência de medida, não uma regra de beleza: cada rosto tem proporções próprias, e a decisão de aplicar ou não cabe ao médico, depois de uma consulta individual.
Resposta rápida: no terço superior, a toxina atua nos músculos da testa, do vinco entre as sobrancelhas e do canto dos olhos. No terço médio, há descrição de uso para a exposição excessiva da gengiva ao sorrir e para as linhas ao lado do nariz. No terço inferior, os alvos são músculos do queixo, do canto da boca e do pescoço, em uma região em que a função da fala e da mastigação exige cuidado extra. Em todos, o efeito é passageiro e há riscos descritos na literatura. Na consulta médica, tudo é analisado em detalhe.
O procedimento tem uma página própria no site, com informações sobre como funciona o atendimento médico. Este artigo é o mapa geral da série e leva, em cada terço, para o texto específico.
Como o rosto é dividido em três terços
Em estudo publicado em 2014 no The Scientific World Journal, Jovana Milutinovic e colegas, da Universidade de Belgrado, definiram o terço superior como a distância entre o tríquio (ponto do implante do cabelo) e a glabela (a região lisa entre as sobrancelhas), o terço médio como a distância da glabela ao subnasal (base do nariz) e o inferior como a distância do subnasal ao mento (a ponta do queixo). A ideia de que os três segmentos teriam o mesmo tamanho vem dos chamados cânones neoclássicos.
O mesmo grupo mediu 83 mulheres brancas de 22 a 28 anos, estudantes de medicina e odontologia, e 24 modelos e atrizes brancas consideradas atraentes. Nas estudantes, os autores relatam o terço médio menor que os outros dois, embora a tabela estatística do artigo não deixe claro o peso dessa diferença. No grupo das modelos e atrizes, os três segmentos ficaram próximos (médias de 43,75 mm, 38,15 mm e 42,56 mm, do superior ao inferior). Os próprios autores ressalvam que a percepção de beleza varia e que os resultados pedem cautela: os grupos tinham tamanhos diferentes e as medidas saíram de fotografias em duas dimensões.
Em outra população, a conta é diferente. Um estudo de Adegbayi Adekunle e colegas, publicado em 2021 no Journal of Craniofacial Surgery, mediu em 3D o rosto de 452 adultos nigerianos. As alturas médias foram de 69,13 mm no terço superior, 49,89 mm no médio e 67,85 mm no inferior, e os autores afirmam que as medidas não se ajustam aos cânones neoclássicos. Os pontos de referência diferem um pouco dos de Belgrado, o que impede comparar os números diretamente. A conclusão que cabe aqui é outra: proporção igual não é padrão universal, e variação entre origens e entre indivíduos é esperada.
Por que a análise por terços orienta a consulta
A divisão serve para organizar o olhar: o que se observa em cada terço, como os terços se relacionam e quais músculos estão ligados a cada queixa. Em consenso publicado em 2016 na Plastic and Reconstructive Surgery, o Global Aesthetics Consensus Group, formado por médicos de várias especialidades e países, descreve a análise do rosto como um todo. Ela inclui a observação do rosto parado e em movimento, preferencialmente na expressão espontânea, a palpação dos músculos e a consideração de idade, histórico de aplicações anteriores e risco para a função. O painel descreve ainda uma mudança de enfoque: da paralisia do músculo para a neuromodulação, com doses menores no terço superior do que em recomendações anteriores. O documento foi apoiado por uma fabricante, a maioria dos painelistas declarou vínculos com a indústria, e as recomendações se baseiam sobretudo em experiência clínica e opinião de especialistas.
Na consulta médica, a Dra. Mirele analisa essa visão de conjunto antes de qualquer decisão. Os autores do consenso alertam que o excesso em uma área pode prejudicar as vizinhas, o que reforça a lógica de olhar o rosto inteiro.
O que a toxina botulínica faz no terço superior
O terço superior concentra as linhas de expressão da testa, o vinco entre as sobrancelhas e as linhas do canto dos olhos, formadas pela contração repetida de músculos como o frontal e o orbicular dos olhos. A toxina reduz a contração desses músculos, e a pele sobre eles deixa de dobrar com a mesma intensidade.
O artigo sobre o terço superior da face detalha as regiões, a duração descrita nos estudos e o risco mais relatado na área, a queda da pálpebra. Como dado de conjunto, na revisão sistemática de 31 estudos citada pelo consenso de 2016, as taxas relacionadas ao tratamento foram de cerca de 2,5% para queda da pálpebra superior e de 3,1% para queda da sobrancelha. São números de uma revisão, não uma previsão para quem lê.
O que a toxina botulínica faz no terço médio
O terço médio tem menos usos descritos para a toxina, e a literatura é mais cautelosa. O consenso de 2016 informa que os dados sobre toxina isolada nessa região são limitados e que, para o volume das bochechas, o preenchimento era preferido. A toxina aparece em dois contextos principais: as linhas oblíquas ao lado do nariz, em que contribuem os músculos nasal e levantador do lábio superior e da asa do nariz, e a exposição excessiva da gengiva ao sorrir, o chamado sorriso gengival.
Para o sorriso gengival, a revisão narrativa de Bader Fatani, publicada em 2023 na Cureus, incluiu 28 estudos e descreve como alvo os músculos elevadores do lábio superior, em especial o levantador do lábio superior e da asa do nariz. Segundo o autor, o efeito costuma aparecer em uma a duas semanas e dura de quatro a seis meses, e a repetição é necessária. Entre os problemas descritos estão o sorriso assimétrico, dificuldade para beber ou mastigar e, em caso de dose excessiva, um lábio que cai e cobre os dentes ao sorrir. A revisão não declarou conflito de interesse. Mais informações estão no artigo sobre o terço médio da face.
O que a toxina botulínica faz no terço inferior
O terço inferior reúne músculos ligados a funções como falar, mastigar e fechar a boca, por isso pede atenção especial. Um consenso italiano publicado em 2026 na Toxins reuniu 14 especialistas, todos com ao menos 15 anos de experiência, em três rodadas, e revisou 16 consensos internacionais de 2004 a 2024. Segundo o documento, as indicações com concordância total foram a aparência de "casca de laranja" no queixo (músculo mentual), os cantos da boca voltados para baixo (músculo depressor do ângulo da boca) e as bandas verticais do pescoço (platisma). O artigo sobre o queixo celulítico trata especificamente da região do queixo.
O mesmo consenso descreve os riscos funcionais: a passagem da toxina para músculos vizinhos pode causar sorriso assimétrico e, se atingir o músculo que circunda a boca, dificuldade de fala e de sucção e escape de saliva. Os autores afirmam que os dados sobre aplicação guiada por ultrassom ainda são insuficientes. A pesquisa não teve financiamento externo.
Para o pescoço, revisão publicada em 2022 na Toxins por Kyu-Ho Yi e colegas, uma revisão narrativa que reúne imagens de dissecção e de ultrassom, descreve o platisma como o principal alvo para as bandas e para o contorno da mandíbula, e associa o excesso de dose ou a difusão a dificuldade para engolir, alteração da voz e fraqueza dos músculos do pescoço. Os autores reconhecem que faltam ensaios clínicos. O consenso de 2016 reserva o tratamento do platisma da borda da mandíbula ao canto da boca a um grupo pequeno e selecionado de pacientes e cita estudos em que a combinação com preenchimento no terço inferior teve melhor resultado que cada recurso isolado. Veja o texto completo sobre o terço inferior da face.
Quanto tempo dura e por que o efeito varia
Em nenhum dos terços o efeito é permanente. A duração varia com o músculo, a dose, o produto e a pessoa, e os números não valem como promessa; o artigo sobre a durabilidade da toxina botulínica reúne o que se sabe sobre prazos. Um ponto de cautela vem do consenso de 2016: doses altas e repetidas podem causar atrofia muscular e perda de volume, e, quando o masseter é o alvo, outros músculos da mastigação podem aumentar de volume de forma compensatória.
Toxina, preenchimento ou outro recurso
A toxina age sobre o movimento do músculo. Quando a queixa vem de perda de volume ou de uma marca já fixa na pele, outros recursos podem entrar na conversa, e o consenso de 2016 descreve a combinação com preenchimento como frequente. O artigo sobre a diferença entre toxina e preenchimento explica essa distinção, e a página de harmonização facial descreve o atendimento quando há mais de uma queixa.
Quando a toxina botulínica pode não ser indicada
Podem existir condições de saúde, medicamentos em uso e situações pessoais em que o procedimento não é indicado ou pede cuidados especiais. Por isso, na consulta médica tudo é analisado com atenção e em detalhes antes de qualquer decisão.
Quando procurar um médico
A consulta médica é o momento de entender quais terços e quais músculos fazem sentido considerar, quais são os riscos no caso de cada pessoa e se existe outra opção mais adequada. Depois de qualquer aplicação, dificuldade para engolir, falar ou respirar, pálpebra caída, visão dupla, sorriso assimétrico que incomoda ou qualquer reação que preocupe justificam contato rápido com o médico que fez o procedimento. Antes de decidir, vale informar o histórico de saúde, as alergias e os medicamentos em uso.
Perguntas frequentes
Os três terços do rosto precisam ter o mesmo tamanho?
Não. A igualdade dos terços é um cânone usado como referência de medida. Em estudo com 452 nigerianos, as alturas dos terços diferiram bastante entre si, e os autores concluíram que as medidas não se ajustavam a esse modelo.
A toxina botulínica pode ser aplicada nos três terços na mesma consulta?
O consenso de 2016 descreve uma abordagem do rosto como um todo, com análise da expressão e dos músculos envolvidos. Quais áreas serão consideradas, e se haverá mais de uma, é decisão do médico, caso a caso.
O efeito é definitivo?
Não. Os estudos descrevem efeito temporário, de alguns meses, que depende da região, da dose e da pessoa.
Qual terço tem mais risco?
A literatura não ordena os terços por risco, mas descreve riscos funcionais no terço inferior, porque os músculos da boca e do pescoço participam da fala, da mastigação e da deglutição. Em todos, o risco depende de anatomia, dose e técnica.
Referências
- Milutinovic J, Zelic K, Nedeljkovic N. Evaluation of Facial Beauty Using Anthropometric Proportions. Scientific World Journal, 2014;2014:428250. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC3951104
- Adekunle AA, Olowo AY, James O, et al. Facial Anthropometry Measurements Using 3D Stereophotogrammetry Analysis Among Nigerians. J Craniofac Surg, 2021. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8783922
- Sundaram H, Signorini M, Liew S, et al. Global Aesthetics Consensus: Botulinum Toxin Type A, Evidence-Based Review, Emerging Concepts, and Consensus Recommendations for Aesthetic Use, Including Updates on Complications. Plast Reconstr Surg, 2016;137(3):518-529. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC5242214
- Fatani B. An Approach for Gummy Smile Treatment Using Botulinum Toxin A: A Narrative Review of the Literature. Cureus, 2023;15(1):e34032. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9941039
- Fundarò S, Molinari P, Brunelli G, et al. Italian Consensus and Review in Lower Face Mimetic Muscle Treatment with Botulinum Toxin-A. Toxins, 2026;18(8):332. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC13517480
- Yi KH, Lee JH, Lee K, et al. Anatomical Proposal for Botulinum Neurotoxin Injection Targeting the Platysma Muscle for Treating Platysmal Band and Jawline Lifting: A Review. Toxins, 2022;14(12):868. pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC9783622
Importante: este artigo tem caráter informativo e educativo. Ele ajuda a entender o tema, mas não permite diagnosticar, tratar nem decidir sozinho sobre a sua saúde. Cada pessoa tem uma história diferente: para analisar o seu caso, converse com um médico.
Informações conferidas com as fontes citadas. Última revisão: outubro/2026.
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